As Seis Paramitas

Tai Situ Rinpoche

Tai Situ Rinpoche

Um Ensinamento do 12º Chamgon Tai Situ Rinponche

Pediram-me que eu transmitisse ensinamentos sobre as seis perfeições – eu acho que vocês querem que eu transmita ensinamentos sobre as seis paramitas, que são as seis perfeições.

As seis paramitas, em geral, constituem a prática de um bodhisattva – é uma prática Mahayana e é ensinada nos sutras. Ao mesmo tempo, as seis paramitas – em todos os seus aspectos – devem fazer parte da prática Theravada, assim como da prática Vajrayana, mesmo sendo parte da prática Mahayana.

Quando as pessoas traduzem a palavra ‘paramita’ como ‘perfeição’, eu não sei se essa é a tradução exata, pois, quando se trata de certas coisas, sou um perfeccionista e isso me faz sofrer, não é uma coisa boa. É irritante porque nada vai ficar perfeito. Impossível! Enquanto algo for algo, justamente por ser algo, será imperfeito. Como alguma coisa pode ser perfeita? Eu não sou um perfeccionista em tudo, mas em determinadas coisas – coisas que me dão alergia, por exemplo – sou perfeccionista.

Então, existe uma certa falha na palavra ‘perfeição’. Eu não sei exatamente como se traduz a palavra ‘paramita’ do sânscrito para o inglês, mas ela é traduzida para o tibetano como pa-rol-tu-jin-pa, que é uma descrição: pa-rol quer dizer ‘outro lado’ e jin-pa, ‘alcançado’. Por exemplo, nós devemos ser diligentes – mas por quanto tempo? Por quantos anos, vidas e eras teremos que ser diligentes? Tem que haver um fim, pois não podemos ser diligentes para sempre. É muito desanimador. O mesmo acontece com a generosidade. Por quanto tempo teremos que ser generosos? E o quão generosos devemos ser? Tem que haver um fim para isso. O mesmo também vale para a meditação. Por quanto tempo teremos que meditar? Uma vida? Dez vidas? Um milhão de vidas? Um bilhão de vidas? Quanto tempo? E quanto é o suficiente? Dessa forma, para cada um dos seis aspectos da prática das paramitas, que estão descritas muito claramente nos sutras, existe uma ideia de fim, de completude.

Por exemplo: você precisa de um barco e remos até alcançar o outro lado da margem de um rio. Mas, uma vez que chega lá, você não precisa mais carregar o barco e os remos, a não ser que você ainda vá atravessar outro rio. Desse modo, cada uma dessas práticas – generosidade, moralidade, diligência, paciência, meditação e sabedoria – tem um término: você as completa. Esse é o significado de pa-rol-tu-jin-pa, que é uma descrição – ‘o outro lado alcançado’. Jin-pa significa ‘já alcançado’, ‘já chegado’; pa-rol significa ‘o outro lado’ e tu é a expressão gramatical que serve para unir essas duas palavras.

Paramita da Generosidade

Quando dizemos ‘generosidade’, geralmente pensamos em dar dinheiro ou alguma coisa para os outros. Mas esse é só um tipo de generosidade. Isso se chama sang-zing nor-gye jin-pa. San-zing significa ‘caótico’, mas também é um termo descritivo, porque sang-zing significa ‘mundano’, ‘samsárico’.  Nor significa ‘coisas valiosas’, ‘pertences’ e jin-pa significa ‘dar’. Então, comida, roupas, joias, dinheiro – todas essas coisas são sang-zing nor. Jin-pa significa ‘dar’. Desse modo, dar esse tipo de coisas é san-zing nor-gye jin-pa.

O segundo aspecto de jin-pa é min-zid khyap-gyi jin-pa. Zid-pa significa ‘medo’, então min-zid-pa significa ‘ausência de medo’. Khyap significa ‘proteção’, ‘refúgio’. Dessa forma, você está dando proteção para aqueles que estão com medo, dando proteção aos outros; isso é min-zid chap-gyi jin-pa.

Então, de todos os aspectos da generosidade, o aspecto final é dam-pa cho-gyi jin-pa. Dam-pa significa ‘sagrado’, ‘profundo’, ‘nobre’; cho significa ‘darma’ e jin-pa, como foi dito antes, significa ‘dar’. Desse modo, ensinar o darma, transmitir a linhagem do darma é dam-pa cho-gyi jin-pa.

Esses três aspectos são uma versão resumida da generosidade.

‘Paramita’ refere-se a algo que transcendeu o dualismo e a triplicidade. ‘Eu’ estou ‘dando proteção’ a ‘ele’ ou a ‘ela’. Então, essas três coisas: ‘eu’, ‘ele (a)’, ‘dando proteção’; ou ainda: ‘eu’, ‘dando comida’ a ‘ele (a)’ / ‘eu’, ‘ensinando o darma’ a ‘eles’ – quando alguém realmente transcende essas três coisas – sem dualidade, sem triplicidade – então esse alguém atingiu a paramita da generosidade. É como o Buda ensinando o darma – manifestar o darma é o resultado da paramita da generosidade porque Buda não estava pensando, não estava planejando, não estava reagindo às ações dos outros. É uma manifestação espontânea, de acordo com a capacidade pessoal. O ensinamento do darma pelo Buda é não-dualista.

Hoje em dia muitas pessoas se interessam pelo Budismo, mas as suas descrições do Buda são do tipo: “Buda disse isso, Buda ensinou aquilo, mas se Buda estivesse vivo hoje, ele diria coisas diferentes porque os tempos mudaram.” Isso mostra que tais pessoas não sabem ou não acreditam na verdadeira essência de Buda. Buda é ilimitado, não-dualista, livre da triplicidade e, então, todos os seus ensinamentos são manifestações e não resultados de um trabalho bem feito. O que estou apresentando a vocês hoje é o resultado do meu “trabalho de casa” porque eu tenho que sentar e fazer anotações. Eu lembro das coisas, mas no caso de vocês me deixarem atrapalhado a ponto de eu vir a ter um “branco”, eu tenho minhas anotações aqui, por segurança. Isso nunca aconteceu comigo, eu sou uma pessoa bem impassível, eu tenho uma máscara de ferro. Mas pode acontecer – minha máscara de ferro pode derreter; então, eu tenho a minha boia de segurança comigo. Já o ensinamento de Buda é diferente: é espontâneo, não-dualista e sem triplicidade.

Então, esse é o resultado final da paramita da generosidade. E para pessoas como nós? Como atingiremos a paramita da generosidade? Na verdade, não há muito o que fazer, porque isso tudo depende da nossa maturidade, do nosso ego, dos nossos apegos, dos nossos sentimentos de raiva, inveja, orgulho e por aí vai. Depende da nossa capacidade de perceber, “domar” e transformar todas essas coisas; tem tudo a ver com essa capacidade. Não há nada que possamos fazer para acelerar o nosso amadurecimento, exceto agirmos de forma muito diligente, muito sincera e muito genuína. E, obviamente, só poderemos agir dessa forma quando tivermos reunido e internalizado todas as condições para tal. Se tentarmos parecer genuínos e sinceros estaremos apenas enganando a nós mesmos; estaremos como que tentando fazer uma lavagem cerebral em nós mesmos. E não obteremos nenhum resultado a partir de uma lavagem cerebral. Para alcançarmos algo, devemos ser verdadeiramente genuínos e sinceros.

Qualquer que seja a compaixão que tenhamos desenvolvido, esta tem que ser uma compaixão verdadeira; e qualquer que seja a devoção que tenhamos desenvolvido, esta tem que ser uma verdadeira devoção – nem forjada, nem encenada. Dessa forma, poderemos andar como um bodhisattva, falar como um bodhisattva, vestir-se como um bodhisattva. Mas devemos ser verdadeiramente bodhisattvas, caso contrário seremos apenas atores interpretando bodhisattvas. Se você apenas age como um bodhisattva, você não passa de um ator encenando ser um bodhisattva. Nós temos que ser bodhisattvas de verdade, a partir do nosso interior.

No final das contas, tudo se resume em prática. E prática em todos os níveis: você não pode praticar uma paramita sem praticar todas as outras paramitas – elas são todas interconectadas. Você não pode isolar uma paramita em sua prática. Nos ensinamentos, sim – você pode transmitir ensinamentos sobre uma paramita hoje e sobre outra amanhã. Você pode até fazer uma prova sobre uma das paramitas – você pode ser aprovado ou reprovado – mas, em se tratando de prática, todas as paramitas estão juntas. Você não pode praticar a paramita da generosidade sem a moralidade, a diligência, a meditação, a sabedoria e a paciência. Você tem que praticar todas elas juntas; você vai praticá-las juntas; você não pode praticá-las separadamente.

Generosidade, por definição, é … nós temos apego por aquilo que possuímos, o que é uma coisa normal. Por quê? Porque nós somos seres sencientes no samsara. Então, ter apego às coisas que possuímos é normal – queremos manter nosso corpo limpo, nossa boa aparência e nossas coisas favoritas bem conservadas. Somos capazes de doar a maior parte de nossas coisas, mas não todas elas. Às vezes pode ser tão bobo como uma pessoa de oitenta anos agarrada ao seu ursinho de pelúcia de infância. Isso acontece. Eu tenho um ursinho de pelúcia. Há muito tempo, um velho japonês me deu um ursinho de pelúcia e o meu ursinho é o melhor ursinho que existe. Todo mundo é assim; todo mundo tem alguma coisa especial – alguns têm um Mickey Mouse, outros têm bonecos, outros têm anéis ou diamantes. Todo mundo tem algo. Uma pessoa religiosa terá relíquias ou coisas desse tipo às quais se agarrará com força, não se separando delas nunca. Tudo isso é a base para a generosidade.

E também, é claro, há os necessitados, aqueles que necessitam de comida, aqueles que são pobres, aqueles que passam fome, essas coisas estão todas por aí. Então, você pratica a generosidade para beneficiar essas pessoas. Ao mesmo tempo, isso naturalmente faz com que você acumule méritos, porque se alguém está desesperado de fome, você pode aliviar esse desespero, mesmo que por apenas três horas, apenas oferecendo um prato de comida. Isso é mérito; você ajudou alguém a se sentir confortável por três horas. Isso não é ruim, isso é bom. E aí, se você dá um cobertor para alguém que está congelando de frio e esse cobertor dura um inverno, essa pessoa poderá se manter aquecida durante o inverno; isso é bom, isso não é ruim.

Mas não é somente isso – essas atitudes também fazem com que você tenha menos apego às coisas que você possui. Quando você tem menos apego às coisas que você possui, então você terá menos inveja por aquilo que você não possui. Isso também acontece naturalmente. Quando não gostamos de nossas coisas, nós talvez não tenhamos dificuldade para dar tudo o que possuímos, mas aí vamos querer ter o que gostamos – que é tudo aquilo que não temos. É por isso que as pessoas vendem suas coisas para os brechós – é porque elas querem se livrar de todos os seus velhos móveis e objetos para poder comprar outros, novos. Mas vender as coisas para os brechós por preços muito baixos não é generosidade.

Bem, apego é a maior “impureza” dos seres humanos – nós sabemos como nos apegar a tantas coisas, nós somos capazes de nos apegar de maneira muito mais complexa do que os animais. Animais têm apego, mas eles têm apego a coisas simples. O apego deles é fixo e previsível, mas o nosso apego é muito sofisticado. Às vezes, nós nem sabemos direito, nós também ficamos confusos sobre nós mesmos – um apego pode estar entrelaçado com vários outros tipos de apego: apego a não ter apego, por exemplo. E todas essas coisas devem ser tratadas passo a passo.

Em primeiro lugar, nós temos que ter apego a não ter apego. Uma vez que atingimos esse estágio, devemos, então, superar tal apego. Mas só lidamos com isso quando chegarmos em tal estágio, não agora. Se tentarmos lidar com isso agora, ficaremos confusos. É como se alguém quisesse fazer um retiro de três anos e antes de começá-lo, já começasse a se pensar no que vai fazer depois do retiro. Isso acontece. Algumas pessoas vêm falar comigo e dizem: “Eu quero fazer um retiro de três anos; meu Lama concordou, eu já tenho um lugar para o retiro, tudo está acertado, mas agora, por favor, aconselhe-me a respeito do que eu devo fazer quando sair do retiro.” E aí a coisa toda está arruinada, já naquele momento. Mas a percepção de algumas pessoas é tal que elas acreditam que devem pensar desse modo. Elas não sabem como pensar de outra forma. Isso também faz parte do carma e dos méritos dessas pessoas; a percepção delas é o resultado do carma de cada uma delas.

Então, generosidade não é somente transformar em ricas as pessoas pobres, é muito mais profundo do que isso. Se fosse apenas transformar pobres em ricos, nós teríamos primeiro que definir quem é pobre, porque há tantos níveis de pobreza – a pobreza de dinheiro, a de conhecimento, a de sabedoria, a de capacidade, a de gratidão, a de satisfação, a de contentamento, todos os tipos de pobreza. E então, qual pobreza combateríamos primeiro? E como procederíamos para fazer com que todas essas pessoas se tornassem ricas de dinheiro, conhecimento, sabedoria, contentamento e tudo o mais? Dessa forma jamais completaríamos a prática da paramita da generosidade. Tornar todos os seres sencientes do universo inteiro ricos em tudo não é atingir a paramita da generosidade. Quando estamos livres da triplicidade, quando estamos livres da dualidade, aí, sim teremos atingido a paramita da generosidade.

Paramita da Moralidade

Quando se trata da segunda paramita, que é a moralidade, normalmente pensamos no conceito geral de que moralidade significa não fazer coisas ruins. Isso é verdade, mas é apenas uma forma de moralidade. Nós chamamos essa forma de moralidade de nye-chud dom-pe tsul-trim, o que significa que você está evitando fazer coisas erradas. Entretanto, outro aspecto da moralidade é ge-wa cho-dud-kyi tsul-trim, que significa ‘fazer o que é positivo e o que é bom’. O terceiro e final aspecto da moralidade é fazer coisas benéficas para outros seres sencientes, o que engloba os outros dois aspectos. Se para você for positivo ou negativo, não importa; o que importa é que se algo for benéfico para os outros, então isso é o mais moral. Dessa forma, a moralidade tem três aspectos. Não é simplesmente: “não faça isso, não coma aquilo, não beba isso, não cheire aquilo, nem olhe para aquilo…”, ou qualquer outro tipo de ação moral. A moralidade envolve vários níveis e profundidades.

Paramita da Paciência

Quando se trata de paciência ou tolerância, normalmente estamos falando sobre coisas difíceis – algumas pessoas tentam lhe irritar ou provocar e aí você mantém a calma – essa é a visão que temos da paciência. É verdade, é um aspecto da paciência, mas aqui temos muitos outros aspectos também. Quando um ser senciente ou uma pessoa está lhe atormentando ou fazendo algo que você não gosta e você tolera isso, você não está reagindo negativamente – esse é um aspecto da paciência que nós chamamos de no-che la chi mi-njam-pe zo-pa. No significa ‘mal’, ‘dano’; che significa ‘aquele que faz’ – aquele que está lhe fazendo mal –; la quer dizer ‘para’ (uma palavra gramatical); e chi mi-njam-pa significa ‘ignorando’, ou seja, você é capaz de não se importar. Por exemplo, se alguém insiste em falar mal de você, então, em vez de ficar tomando isso como algo pessoal, você passa a escutar tudo que está sendo dito como se fosse música. É somente um som, essa pessoa está produzindo sons, blá, blá, blá. Deixe então a pessoa falar tudo o que ela quer dizer e, quando esta terminar de falar, você pergunta: “Você terminou?”; a pessoa diz: “Sim!” e aí, tudo bem, nada acontece. Caso contrário, você vai dizer algo para revidar, e aí o outro retruca e assim por diante e a coisa não acaba nunca. Algumas vezes, é possível até perder os dentes por causa disso e depois ainda ficar sem poder falar por uns dias. Se você ignora a agressão verbal, nada disso acontece. É muito bom se você consegue prevenir esse tipo de coisa através da tolerância e da paciência.

Outra coisa é dug-ngal dang-len-kyi zo-pa: dug-ngal significa ‘sofrimento’ e dang-len significa ‘ser capaz de aguentar algo’. Desse modo, se diante de qualquer dificuldade você é capaz de lidar com ela, então, você não é feito de plástico, chumbo ou ouro, você é feito de aço inoxidável. Você é durável, resistente, você aguenta. É como se você fosse a caixa de marchas do maior dos caminhões – que pode carregar várias toneladas, enfrentando várias curvas e viradas sem quebrar. Isso é dug-ngal dang-len-kyi zo-pa – você suporta, você tem estamina, você tem força para enfrentar o sofrimento; e não somente para enfrentá-lo, mas também para fazer uso dele, um bom uso, transformá-lo em algo positivo. Porque, por exemplo: problemas e situações difíceis – se você pode olhá-los com uma mente clara, vai ver que eles são coisas boas.

Nós temos um ditado – ele não tem nada a ver com isso, mas possui um significado aparentemente contraditório que pode descrever em parte o que estamos falando aqui. Não é nenhum pouco dármico ou compassivo, mas é um ditado e atitude comuns entre as pessoas do local de onde eu venho. Lá, as pessoas dizem: “Quanto mais poderosos os seus inimigos, maior a sua glória (do guerreiro).” Isso quer dizer que, se você é um grande guerreiro, você deve ter oponentes poderosos, fortes, majestosos e capazes, caso contrário, você parecerá patético. Por exemplo, se você tem quase dois metros de altura e pesa trezentos quilos, então, lutar contra alguém que tenha apenas um metro e meio e cinquenta quilos vai fazer com que você pareça um lutador ridículo. Não é o inimigo que parecerá patético, mas você. Se você tem quase dois metros de altura, então, você deve lutar contra inimigos que tenham pelo menos dois metros e dez centímetros – dez inimigos assim, e você será um grande guerreiro. E dessa maneira, seguimos: se você tem a capacidade de lidar com situações negativas e de transformá-las em algo positivo, então, quanto mais negativa a situação for, maior o impacto de maturidade que ela terá na sua vida; a sua maturidade será acelerada através da sua capacidade de transformar situações negativas em situações positivas. É a mesma coisa que “quanto mais madeira, maior a fogueira”. Isso é dug-ngal dang-len-kyi zo-pa.

E aí vem o terceiro e último aspecto, que é cho-la-nge sem-kyi zo-pa. Isso significa ‘fé’, que é também um aspecto da paciência e da tolerância, já que tudo é vacuidade. Você é verdadeiramente capaz de entender isso, de compreender isso, então, essa é uma capacidade. Você quer atingir a budeidade para que todos os seres sencientes se beneficiem e atinjam a budeidade também, que é a bodhichitta. Isso é também cho-la-nge sem-kyi zo-pa. Você deve ter tolerância e paciência ilimitadas e imperturbáveis para alcançar esse estágio. É muito fácil falar, são belas palavras: “Que a fome não exista mais no mundo, que todos os seres sencientes possam tornar-se Budas, que todos sejam irmãos e irmãs.” Essas são coisas lindas de se dizer, mas dizê-las realmente do fundo do seu coração é cho-la-nge sem-kyi zo-pa, que, por sua vez, é um aspecto muito importante da paciência.

Paramita da Diligência

Geralmente pensamos que se somos capazes de seguir em frente e não somos preguiçosos, isso é diligência. É verdade, esse é um aspecto da diligência. Mas há também gho-che tson-dru. Go-che significa ‘armadura’. Em tempos passados, quando você ia para uma batalha, você usava uma armadura. A razão de você vestir uma armadura é que, do começo da batalha até o fim dela, você não queria ser ferido. Você conhecia o inimigo, então, conforme fossem as armas do inimigo, você vestia um tipo de armadura – de metal grosso, de metal fino ou de malha de correntes. E também os guerreiros vestiam armaduras de acordo com as suas funções. Se tivessem que enfrentar um batalhão de arqueiros, eles usavam um tipo específico de armadura. Nesse caso, o melhor era vestir uma armadura de correntes entrelaçadas, porque onde quer que as flechas atingissem, as correntes se fechavam em torno delas. Dessa forma, a armadura de malha de correntes garantia uma proteção automática e concentrada contra as flechas, onde quer que elas a atingissem, e o corpo ainda podia respirar. Então, tudo isso se chama gho-che tson-dru.

Agora, o que significa tudo isso para aqueles de nós que querem atingir a budeidade para o benefício de todos os seres sencientes? Que tipo de armadura precisamos usar? Precisamos de bodhichitta, nossa original, profunda e sincera bodhichitta. Então, não importa o que aconteça, eu nunca quebrarei meu voto de bodhisattva. Aquele voto, aquela determinação – isso é a armadura. E aí, não interessa se vem um machado, uma espada, uma lança, um taco ou uma flecha – seja o que for, você será capaz de deter o objeto, pois sua armadura é ilimitada, incorruptível e totalmente determinada. Isso é gho-che tson-dru e é um dos aspectos da diligência. Não importa o que aconteça, você seguirá em frente por causa da sua motivação e determinação originais.

 Outro aspecto é ge-wa la tro-we tson-dru. Isso quer dizer ‘fazer coisas boas’ – você gosta de fazer coisas boas, você nunca fica cansado ou farto de fazer coisas boas. Você pode continuar fazendo coisas boas sem parar. Coisas boas são: orar, meditar, ser generoso, ser gentil. Você tem alegria em fazer coisas positivas e úteis. Não é algo como: “Oh, meu deus, agora eu tenho que orar de novo!” Você deve ter a seguinte atitude: “Quando começa a oração? Quando começa a meditação? Já está tarde, por que não começamos logo?” Você tem que ter alegria. Você não pensa: “De novo, não!” Isso é ge-wa la tro-we tson-dru. Ge-wa significa ‘virtude’, ‘positivo’, e tro-we significa ‘alegria’.

O último aspecto é sem-chen tson-dru. Isso quer dizer ‘fazer coisas para os outros’, ‘fazer coisas benéficas para os seres sencientes’. Isso é ser diligente. Se você começar a fazer algo para os outros, então você começa lá do início e continua; você tem paciência e tolerância para continuar fazendo o que você começou a fazer, você não fraqueja ou vacila no meio do caminho. E esses são os três aspectos da diligência.

Paramita da Meditação

De um modo geral, meditação significa que, com um objeto e percepção, ou sem um objeto e sem percepção, você está permitindo que a sua mente repouse na paz da natureza do seu estado primordial. A meditação é descrita aqui como thongwe chola dewar nepe samten; thongwe chola significa ‘o que você vê’, ‘o que está lá’, dewar significa ‘confortavelmente’, nepe significa ‘permanecendo’ e samten significa ‘meditação’. Você faz prática de meditação Shamata para que tudo esteja ok, a despeito do que quer que esteja lá, ao seu redor. Você é capaz de manter a sua calma e a sua estabilidade independente do que esteja acontecendo, onde quer que você esteja. Por exemplo, se você está no meio da rua, você está calmo; se você está no templo, você está calmo; se você está na pista de dança de uma discoteca, você está calmo; se você está dentro de uma cozinha onde estão cozinhando chilli e picando cebolas, você está calmo (e esta parte na cozinha vai ser a mais difícil, a pior!). Mas, de qualquer modo, você consegue manter sua sanidade, sua calma e sua clareza em qualquer situação. Isso se chama thongwe chola dewar nepe samten.

O segundo aspecto do samten (meditação) é yon-tem dru-pe samten. Yon-ten normalmente significa ‘conhecimento’, mas, nesse caso, significa ‘sabedoria’. Sabedoria e conhecimento são coisas ligeiramente diferentes. Então, estamos falando de uma meditação que vai além de somente ser capaz de manter a estabilidade e clareza. A sabedoria que está dentro de cada um, nós a chamamos de ‘sabedoria primordial’, ‘natureza búdica’, ‘bodhichitta última’, ‘vacuidade última’, ‘Mahamudra definitivo’ ou ‘rigpa’. Tudo isso é a mesma coisa. Então, ser capaz de amadurecer isso, desenvolver isso, tornar isso manifesto é um outro tipo de meditação. Por exemplo, se nós estamos fazendo práticas de Yidam, realizamos vários tipos de visualizações e recitações – tudo isso busca esse segundo aspecto da meditação. É claro que buscamos o primeiro aspecto também, mas vai muito além disso.

O terceiro e último aspecto é sem-chen ton-che chi samten. Esse aspecto tem a ver com beneficiar outros seres sencientes; isso é realização, a verdadeira realização, porque sem se realizar você não pode beneficiar outros seres como um Buda. Depois da iluminação do Buda Príncipe Siddhartha, todo o darma se manifestou. Até hoje o seu darma se manifesta. O corpo do Príncipe Siddhartha morreu há 2500 anos – Buda viveu até seus oitenta e um anos, então não são exatamente 2500 anos desde sua morte, mas o paranirvana de Buda se deu há muitos e muitos anos – mas esse é o nirmanakaya de Buda, Príncipe Siddhartha. O sambhogakaya e o dharmakaya são primordiais. O nirmanakaya e o sambhogakaya são manifestações do dharmakaya.

Buda se manifesta de formas incontáveis: como um jardim, como água, chuva, sol, até como uma ponte, qualquer coisa. Algumas das preces de aspiração dizem: “Que eu possa me tornar um barco para aqueles que estão perdidos no oceano; que eu possa me tornar uma lâmpada para aqueles que precisam de uma luz; que eu possa me tornar uma ponte para aqueles que cruzam um rio.” Você pode dizer isso simbolicamente e também verdadeiramente. Desse modo, Buda é como um navio, como uma lâmpada, como uma ponte. Essa é uma maneira, mas Buda pode se manifestar de inúmeras outras formas. Na verdade, Buda pode se manifestar de qualquer forma, não há limitações para as formas pelas quais ele pode se manifestar. Se há alguma limitação, então é porque não é Buda, é alguma outra coisa menor do que Buda.

Então, sem-chen ton-che chi samten refere-se à mais profunda meditação – que pode ser, por exemplo, a meditação de um bodhisattva do décimo nível. A meditação de um bodhisattva do décimo nível, se comparada com a nossa, não é meditação, é apenas viver. Para nós, é viver; mas para eles, se comparam sua própria meditação com a de um Buda, é meditação, porque um bodhisattva do décimo nível ainda faz uma pós-meditação e, portanto, ainda passa por níveis diferentes de meditação. Para um Buda, não há pós-meditação ou qualquer diferença entre estados de meditação. Para um Buda, tudo é primordial. E este é o terceiro aspecto da meditação.

Paramita da Sabedoria

Quando se trata de sabedoria, é claro que tudo está relacionado com sabedoria, mas a prática da sabedoria é primeiro escutar – você recebe a transmissão da sabedoria através do recebimento das palavras da linhagem, desse modo, você recebe a linhagem da transmissão da sabedoria através da audição. Depois, em segundo lugar, tem aquilo que você escutou, que você aprendeu – você contempla essas coisas e quando você está fazendo isso, você está praticando a sabedoria. Ao contemplarmos o que ouvimos e o que aprendemos, tudo fica mais claro e mais profundo. A isso damos o nome de sam-pe she-rab, a sabedoria da contemplação.

A sabedoria final é a sabedoria da meditação.  Esta é, na verdade, a sabedoria primordial, que se manifesta de dentro para fora através da meditação. Você não será capaz de desenvolver a sabedoria primordial através de exercícios ou livros ou palavras porque a sabedoria primordial está em você. Não está lá fora, em algum lugar. Você não pode adquiri-la, você não tem que adquiri-la, pois ela está em você. A sabedoria primordial tem que se manifestar de dentro de você, e isso acontece através da meditação. Então, isso é to-pe sherab, sam-pe sherab, gom-pe she-rab – ‘sabedoria através da escuta, contemplação e meditação’.

Quando você diz “dez paramitas”, dá no mesmo, pois, nesse caso, é porque a paramita da sabedoria está dividida em quatro: thab (método), thop (força), monlam (aspiração) e yeshe (sabedoria primordial). Então, quando a sabedoria está dividida em quatro, temos dez paramitas. Mas as seis paramitas de alguma forma incluem as duas sabedorias porque sabedoria é tanto sabedoria quanto sabedoria primordial. Você adquire a sabedoria ligada ao conhecimento e à inteligência através da escuta e da contemplação; mas a sabedoria primordial manifesta-se através da meditação. E essa é a sabedoria final.

Eu vou dizer isso mais uma vez: paramita significa todos esses seis aspectos – quando você atinge o estado não-dualista e sem triplicidade, então é paramita. Embora alguns textos mencionem que você atinge a realização da primeira paramita e depois da segunda etc., isso é só uma descrição, mas, na verdade, você atinge todas as paramitas praticamente ao mesmo tempo. Por exemplo, você não pode atingir a paramita da generosidade sem ter atingido a paramita da moralidade, pois a paramita da generosidade tem uma moralidade. E também é necessário que você tenha diligência, meditação, sabedoria – tudo isso. Caso contrário, como você pode ter atingido somente a paramita da generosidade sem todas as outras paramitas? Então, é assim: nós podemos aprender sobre cada paramita separadamente, mas, na prática, elas são todas interconectadas. São seis aspectos de uma coisa primordial. Nem é uma coisa, é apenas primordial. Então, seis aspectos disso; poderiam ser dez aspectos, um milhão de aspectos, mas Buda manifestou o ensinamento como seis paramitas ou dez paramitas.

Em alguns textos como “Entering the Middle Way” (Em tibetano: Uma La Jukpa, Skt. Madhyamaka Avatara)[em tradução livre para o português, “Entrando no Caminho do Meio”], os dez bhumis e as dez paramitas são explicados como se fossem coisas de certa forma relacionadas. Mas essa é só uma forma de ensinar – na verdade, um bodhisattva do primeiro nível não é aquele que atingiu a paramita da generosidade, mas ainda não atingiu a paramita da moralidade; assim como um bodhisattva de segundo nível não é aquele que já atingiu a paramita da moralidade, mas ainda não atingiu a paramita da paciência. Não é assim que funciona. Os bodhisattvas de todos os dez níveis atingiram todas as paramitas, mas de forma cada vez mais profunda. O décimo nível de bodhisattva é o nível mais profundo.

No final das contas, a razão de estarmos todos no samsara é a nossa ignorância. Mas o que é que ignoramos? Ignoramos a sabedoria primordial, a essência primordial. Se você é um ignorante em sabedoria primordial, você é um ignorante em tudo. Por exemplo, se você é cego, você não pode ver nada – mas isso não quer dizer que todas as coisas não estejam lá. Está tudo lá, mas você não enxerga porque é cego. Do mesmo modo, se somos ignorantes, estamos no samsara. O resultado inevitável da ignorância e do ego são o apego, a raiva, o ciúme, o orgulho – todas essas coisas. Por exemplo, se você pula dentro de uma piscina, você fica molhado. Isso é natural. Não é que você precise fazer duas ações – pular na piscina e ficar molhado. As duas coisas estão juntas, são uma coisa só. Do mesmo modo, se você é ignorante, então todas as outras coisas são a mesma coisa, uma coisa só. Muitas e muitas coisas são uma coisa só.

Para superar todo o carma e até o hábito do carma, todos os traços do seu “eu” – até o mais sutil, transparente e leve traço – devem ser transformados por você para que você venha a ser o que você realmente é: a encarnação da sabedoria primordial, ilimitada, livre de todo o dualismo e triplicidade. E é para isso que praticamos as seis paramitas.

Isso é muito interessante porque uma maneira de encarar essa busca é vê-la como se você estivesse praticando as seis paramitas para você mesmo, mas outra maneira de encarar essa busca é vê-la como se você estivesse praticando as seis paramitas para todos os outros. Mas, na realidade é para ambos, pois se você alcança as seis paramitas, então, você é ilimitado e o benefício que você traz para os outros seres sencientes é exatamente como o benefício que o Buda Shakyamuni traz para nós. Mesmo depois de 2500 anos, Buda Shakyamuni ainda está vivo no seu ensinamento, na sua bênção e na sua linhagem. E nós somos beneficiados por ele, inspirados por ele; ele é como uma lanterna que nos guia. E esse é um benefício para todos os seres sencientes.

Mas o benefício mais imediato é que você salva os dentes dos outros através da sua paciência e também salva os seus próprios dentes! Você entende o que eu quero dizer? Se você entra em uma briga, as pessoas vão dar um soco na sua cara e você vai perder seus dentes, certo? Então, você salva os seus dentes e os dos outros sendo paciente. E, claro, sendo generoso, você pode fazer com que as pessoas se sintam mais confortáveis, sem fome e sem frio. Esse tipo de benefício imediato também existe e quem o faz obtém mérito e purificação. Quanto mais tolerante, mais generoso e mais moral você for, menos egoísta, menos ciumento, menos apegado e menos raivoso você será. Todas essas coisas naturalmente funcionam simultaneamente. Desse modo, é para você, para os outros, para o benefício imediato, para o benefício a longo prazo e para o benefício essencial.

E isso é o que eu posso falar sobre as paramitas. Se vocês tiverem questões, nós temos tempo.

Vajra

Questão:  Como definimos o que é benéfico? Não está claro para mim isso.

Rinpoche: Não está claro para mim também. Mas eu venho definindo essas coisas durante a maior parte da minha vida, então eu sou capaz de defini-las. Mas eu não sei ao certo. Por quê? Porque não há nada para se saber com certeza. Não porque há algo para se saber com certeza e eu ainda não sei. Não, é porque não há nada para se saber com certeza. Quando você faz algo pelos outros, você tem que fazer isso por conta própria e você tem que ser o mais sincero e puro possível, sem qualquer amarra, sem qualquer interesse pessoal. Você faz isso sinceramente para os outros. Isso irá, de alguma forma, corrigir possíveis erros – porque você está sendo puramente sincero.

Se existe qualquer interesse pessoal ou qualquer tipo de amarra, então haverá mais possibilidade de você não fazer direito. E ainda assim, não temos garantia de que algo será benéfico para os outros. Se algo for 90%, 80% ou até mesmo 50% benéfico, a margem de benefício é positiva. Mas se algo é 45% benéfico e 55% prejudicial, então não é bom. Se é 55% benéfico e 45% prejudicial, então é positivo, porque houve um ganho de 5% de benefício. Desse modo, eu não acho que você deva se preocupar demais pensando no que está acontecendo com os outros. Deve pensar um pouco, é claro – nós temos que ter alguma clareza. Mas não demais, porque se pensarmos demais, vamos terminar desistindo de fazer qualquer coisa, pois nada será perfeito. A única perfeição é a perfeição ilimitada, primordial. Se você esperar até tudo estar perfeitamente claro para fazer qualquer coisa, então você não fará nada durante várias vidas. Nós temos que fazer as coisas, mas acho que temos que conferir nossas motivações antes – isso é muito importante. Nossa motivação tem que ser pura, sem influências ou interesses pessoais. Tem que ser puramente e genuinamente para o benefício de outros. Se conseguimos verificar tudo isso em nós mesmos, então será bom.

Mas o quanto somos capazes de fazer vai depender de outras coisas; nós temos que aceitar nossas limitações. Nossa capacidade de fazer o nosso melhor hoje é uma e a nossa capacidade de fazer o nosso melhor daqui a dez anos será outra. Conforme evoluímos, nosso melhor evolui; conforme evoluímos, nosso pior também evolui. Por exemplo: alguns de nós não são capazes de fazer algumas coisas ruins que outros de nós fariam, agora, com a maior facilidade. Por outro lado, alguns de nós não são capazes de fazer algumas coisas boas que outros fariam, agora, com a maior facilidade. Então, essas capacidades, tanto positivas quanto negativas, devem progredir e não degenerar. E, se elas estão progredindo, devemos ficar felizes com isso. Isso está em nossas mãos. O apoio do nosso guru, dos nossos amigos e da nossa sangha faz uma enorme diferença, mas o fato é que está tudo em nossas mãos. Nós temos que fazer o trabalho. O que eu quero dizer é: não importa qual é a comida que colocam na sua frente, você é aquele que tem de comê-la. Se você não a comer, vai ficar com fome. Não interessa o que está no prato. É como nesse exemplo, então.

Questão: Rinpoche, quando alguém está praticando, vamos dizer, a paramita da generosidade, essa pessoa pode ficar muito egotista: “Eu sou uma pessoa tão boa; eu estou dando tudo isso!” e por aí vai. Como podemos lidar com isso?

Rinpoche: É disso que eu estou falando: ter amarras, interesse pessoal. Se você não tem nenhuma amarra ou qualquer interesse pessoal, então é puramente generosidade pela generosidade.

O mesmo estudante: Mas no começo, esse egotismo sempre acontece.

Rinpoche: Sim, no começo sempre acontece, mas você deve fazer o melhor que você puder para não ser assim. E isso vale para tudo: nós temos sempre que fazer o melhor que pudermos. Não há como descrever isso porque o “melhor de si” varia de pessoa para pessoa. E o “melhor de si” para coisas diferentes também varia de acordo com a pessoa e com a coisa propriamente dita. Por exemplo, seu melhor para alguma coisa pode ser o pior de uma outra pessoa, mas o seu pior para alguma coisa pode ser o melhor dessa mesma outra pessoa. É sempre diferente. Por exemplo, todos nós parecemos ser do mesmo tipo, como as árvores, mas cada árvore nesse mundo é diferente, única – mesmo quando se trata de um grupo de árvores da mesma espécie. Não podemos achar árvores idênticas de nenhuma espécie. Pode ser figueira, cedro, pinheiro – você não vai achar duas árvores que sejam exatamente iguais em tudo. Do mesmo modo, o melhor de cada um será diferente. Então, tem que ser cada um fazendo o seu melhor.

Questão: Como se faz para remover o grande ego?

Rinpoche: Tudo aqui é para que as pessoas possam remover o grande ego. Você tem problemas com um grande ego?

O mesmo estudante: Eu quis dizer em geral.

 Rinpoche: Eu tenho um grande ego. Eu tenho um megaego; eu tenho um ego gigantesco. Mas quando alguém sabe que tem um ego gigantesco, isso já é um bom começo. Se a pessoa nem sabe que tem um ego gigantesco, então isso é um grande problema. Um exemplo de ego gigantesco é Napoleão Bonaparte – um ego napoleônico. Ele era uma grande pessoa, mas tinha um ego muito grande.

Questão: Eu achava que ao praticar a generosidade estávamos também praticando os outros elementos.

Rinpoche: Tais como?

O mesmo estudante: Tais como a paciência, a tolerância, a moralidade. Se estou sendo generoso, eu não vou pensar mal ou negativamente das pessoas, ou no quão sujas elas estão, ou que eu não vou querer chegar perto delas enquanto estiver distribuindo dinheiro, por exemplo. Também não vou me sentir desconfiado ao ajudar alguém.

Rinpoche: Não, você não pode esperar que a sua iluminação vá acontecer como um guarda-chuva automático! A iluminação vai acontecer aos poucos, passo a passo. É claro que se você parar em um sinal de trânsito e o seu carro for abordado por alguém com os ossos todos saltando e os dedos da mão faltando, você vai querer ajudar dando algum dinheiro, mas não vai querer tocar nessa pessoa. Isso eu entendo. É claro que essa reação tem a ver com o ego, mas não é má – porque se você tocar essa pessoa, você pode ficar doente que nem ela, e a tal pessoa vai ter que carregar o carma de ter feito você ficar doente. Então, por que você iria querer isso? Eu não quero ficar assim, eu quero manter todos os meus dedos. Mas eu quero ajudar aquela pessoa. Então, o que eu faço é: abro um pouco a janela e dou algum dinheiro, mas jogo um pouco o dinheiro de forma que a pessoa possa apará-lo. Eu não coloco o dinheiro direto na mão dessa pessoa porque se eu fizer isso, posso pegar a doença dela. Se eu ficar doente, isso não vai ajudar a tal pessoa.

Então, isso é algo com que você não deve se preocupar muito. Faça apenas o seu melhor e você evoluirá. Mas se você realmente atingir um alto nível de realização, aí as coisas serão diferentes – se você tocar essa pessoa doente, em vez de você ficar doente, ela é que ficará curada com o seu toque. Entretanto, se você ainda não atingiu esse nível de realização, é melhor você fazer como eu disse antes e orar para que aquela pessoa fique melhor. Você não deve ter incertezas e falsas ideias sobre você mesmo – isso também é ego.

Questão: Quando uma pessoa está fazendo o seu melhor em termos de generosidade, ela pode viver experiências extremamente dolorosas por causa da pouca sabedoria ou da falta de sabedoria para entender as diferenças – como parar, quando parar, quanto dar, quando dar e assim por diante.

Rinpoche: Isso não é um problema.

O mesmo estudante: É muito doloroso

Rinpoche: Doloroso? Quanto? Que tipo de dor? Por exemplo: as pessoas dizem “Fulano me machucou” mas quando eu olho, não há ferimentos, então essas pessoas não estão machucadas de verdade. Talvez estejam falando de algo mental, de algo interno. Quando eu digo que estou machucado, isso significa que alguém me bateu e, desse modo, haverá ferimentos, pois estou machucado. Mas quando as pessoas dizem “machucar”, elas querem dizer coisas diferentes. Então, ao falar que “é doloroso”, você quer dizer que mentalmente você sente que alguém traiu sua confiança – você confiou em alguém e essa pessoa lhe traiu? Esse tipo de coisa?

O mesmo estudante: Tudo isso e ainda frustração, desconforto e dificuldade de manter o foco. Necessidade de anotar meus sentimentos, escrever um diário e perguntar para os amigos “o que eu devo fazer agora?”. Meu deus, estou perdido!

Rinpoche: Não, você está bem. Com o devido respeito, acho que o que você está dizendo talvez seja verdadeiro para todos nós, só que um pouquinho irregular.

O mesmo estudante: Caminhos irregulares?

Rinpoche: Não, não exatamente isso. Eu quero dizer que todos nós passamos por essas coisas que você mencionou; mas você está reagindo a elas de uma forma um pouco diferente da forma que a maioria das pessoas reage. Eu tenho que ser honesto. Eu não sou diplomático. Você está levando tudo isso de maneira muito pessoal, porque as coisas acontecem na vida e nós temos que lidar com elas. E às vezes simplesmente temos que perdoar – mas nunca podemos esquecer. Quando as pessoas dizem “esqueça isso”, eu não acredito nisso. Eu nunca consigo esquecer, a não ser que eu tenha esquecido por engano. Mas eu posso perdoar. Quando alguém faz algo errado, eu posso perdoar essa pessoa, mas não posso esquecer o fato. Por exemplo: um cachorro que me mordeu uma vez pode me morder de novo e, por isso, não vou mais me esquecer desse fato. Lembrar é muito importante porque um mesmo cachorro pode lhe morder mais de uma vez se você esquecer que ele já lhe mordeu antes. Mas você deve perdoá-lo. Então, você deve perdoar, e não tentar esquecer. Mas você também não deve aumentar ou dar valor exagerado às coisas.

Eu vou lhe dar um exemplo: se eu colocar o meu polegar bem perto do meu olho, então ele parecerá maior do que todo o universo. Mas se eu esticar o meu braço (meu braço não é muito longo), aí o meu polegar será apenas o meu polegar. Então, talvez você esteja colocando o seu problema muito perto do seu olho.

O mesmo estudante: Eu estou me levando muito a sério?

Rinpoche: Levando você, todo mundo e todas as coisas muito a sério, talvez.

Questão: Suponha que a pessoa perdoada não esqueça. Se ela esquece a generosidade e a compaixão, ela volta a fazer o que fez de novo e de novo, sem parar. Eu acho que foi isso o que ele quis dizer.

Rinpoche: Você não deve esquecer o que aconteceu com você – dessa forma, isso não vai acontecer com você novamente. Mas você perdoa a pessoa que fez algo errado com você. Então, você irá perdoar, mas não esquecer. Muita gente diz: “esqueça isso”, mas isso não faz sentido nenhum para mim porque, se você esquecer, você nunca aprenderá. Não é positivo esquecer, eu acho que é negativo. Perdoar é uma virtude; lembrar é bom.

Questão: Rinpoche, se alguém tem problemas mentais ou uma doença mental, essa pessoa está “condenada”? Ela pode renascer de forma melhor? Se, devido ao carma, essa pessoa perdeu suas capacidades mentais nessa vida, como será, então, sua evolução?

Rinpoche: Vamos dizer assim: não há diferença entre uma pessoa maluca e uma pessoa sã no bardo. A diferença é somente nessa vida. Assim que você morre e fica em estado bardo, você não é maluco. Na verdade, tudo é maluco, todo o samsara é maluco.

Questão: Rinpoche, se eu tenho uma certa característica nessa vida, por exemplo, se eu sou uma pessoa com muitos medos ou com muita raiva – no bardo essa característica permanece, fica mais acentuada?

Rinpoche: Para um ser humano do planeta Terra, na nossa galáxia, o bardo dura no máximo quarenta e nove dias. Pode durar um segundo, três dias ou uma semana, mas nunca mais do que quarenta e nove dias. É claro que não pode durar menos do que um instante. Então, tecnicamente, até a metade do bardo (seja qual for a sua duração), o estado subconsciente está relacionado a essa vida. Durante a outra metade, será desenvolvido o estado subconsciente da próxima vida – porque aquele carma está amadurecendo. Então, no meio, existe uma outra grande chance para a iluminação – porque não se está aqui, nem lá.

O mesmo estudante: Como é que isso acontece?

Rinpoche: No meio.

O mesmo estudante: Mas Buda não chega nesse momento.

Rinpoche: Quando você diz que Buda não chega nesse momento, o que você quer dizer? Você pode atingir a iluminação naquele momento se você for um grande praticante. No bardo existem várias chances para a iluminação – o primeiro bardo, o segundo bardo, o terceiro bardo. O primeiro é quando você morre, naquele momento. Quando você está morrendo, se você for capaz de reconhecer a natureza da sua mente – porque a sua mente, maluca ou sã, não está limitada à capacidade do seu corpo – essa é uma grande chance. Se você perde essa chance, então a segunda chance ocorre quando você acorda daquele estado e sai do seu corpo – porque quando você ainda está no seu corpo, a conexão cármica entre a sua mente e o seu corpo é muito, muito forte, mas uma vez que você sai do seu corpo, então você está completamente livre. E essa é mais uma grande oportunidade para a iluminação. E aí vem o outro estado, que é um estado muito profundo, um estado que está entre dois estados. Esse é um estado muito puro, muito primordial. E então, a última chance é quando você é conectado a partir do bardo – você passa de um estado ilimitado para um estado limitado: a próxima vida. Essa é a última chance.

Questão: Se você cometeu um dos cinco crimes abomináveis, então o bardo não poderá ajudá-lo?

Rinpoche: Não, depende. Isso se chama tsam medpa nga: matar seus pais, matar um arhat, ferir um Buda e criar uma cisão na sangha. Esse tipo de carma negativo é descrito como o mais extremo e negativo carma que uma pessoa pode acumular. É óbvio que se a pessoa não sente arrependimento, não é mentalmente prejudicada, mas é sã e fez isso conscientemente e intencionalmente, cometeu um ato desses e está feliz com seu feito, então, essa pessoa não terá qualquer bardo. Essa pessoa renascerá no pior reino diretamente. Outra pessoa que também não terá qualquer bardo é aquela que atingiu a mais alta realização – porque o momento de sua morte será a realização.

Questão: Eu não entendo – o que significa ‘bardo’?

Rinpoche: Bardo se refere à mente que continua entre essa vida e a próxima vida, esse período de transição. A palavra ‘bardo’ é tibetana, quer dizer ‘no meio’. Bar-ma-do é parecido com ‘limbo’ – nem lá, nem cá. Mas ‘bardo’ é uma palavra muito clara e quer dizer ‘entre essa vida e a próxima vida’.

Questão: Rinpoche, você frequentemente usa um número de palavras para descrever uma certa qualidade. Você usa as palavras ‘maduro’, ‘genuíno’, ‘sincero’ e ‘honesto’. Você também disse que é através da prática que uma pessoa refina essas qualidades. Eu imagino que, quando falamos sobre sabedoria primordial, são também essas qualidades que têm tudo a ver com o coração e a mente juntos. Essa qualidade está de alguma forma ligada a isso ou não?

Rinpoche: Eu não entendi uma coisa: quando você diz “coração e mente juntos”, o que você quer dizer?

O mesmo estudante: O que eu quis dizer é que se uma pessoa tem a sabedoria primordial, mas ainda não descobriu isso, essa pessoa possivelmente não é genuína. Mas tal pessoa pode ter uma aproximação da genuinidade conforme amadurece em sua prática?

Rinpoche: Todo mundo está em algum estágio. Comparado com alguns, você está muito atrás, mas comparado com outros, você está muito à frente. Mas, na verdade, isso não quer dizer muita coisa, pois o que vai acontecer está no futuro. É como em uma maratona – você pode começar em primeiro lugar e terminar sem conquistar sequer a medalha de bronze. E também uma pessoa pode estar em último lugar no começo da prova e, depois de duas horas correndo, conquistar a medalha de ouro. Dessa forma, tudo depende do indivíduo – diligência individual, prática individual das paramitas, e assim por diante. Tudo depende de tudo. Mas uma coisa: se eu entendi corretamente – mente e coração, e todas essas coisas, a gente se refere a elas intelectualmente, para descrever algo; mas na verdade, não podemos dizer “isso é mente”, “isso é coração”. Tudo está junto. É como: “minha mente está falando”, “meu coração está falando” ou “minha boca está falando”. A coisa toda está falando – minha mente, meu coração e minha boca, incluindo a minha mão.

Questão: Algumas vezes pode acontecer de, ao ficarmos muito envolvidos com as neuroses do samsara, perdermos um pouco da genuinidade que teríamos normalmente em melhores condições. Estou falando por mim; não sei como isso se dá com as outras pessoas, mas acredito que é importante entender que estou me desviando do nível de genuinidade ou sinceridade (ou qualquer outra qualidade) já alcançado por mim antes. “Entrar nos eixos” de novo rapidamente é um tipo de marco a ser alcançado?

Rinpoche: Eu acho que entendi a sua pergunta. Quando eu era criança, um dos meus passatempos era empinar pipa. Eu gostava de lutas de pipas com cortes de fios. Eu era muito bom nisso, era o meu hobby. Se o tempo estivesse ruim, eu usava pipas de plástico, se estivesse bom, eu usava pipas de papel. Então, eu acho que, de acordo com as várias situações e condições em que você pode estar, você deve usar sua prática e percepção para agir. Cada um de nós é capaz de fazer isso, mas devemos nos sintonizar para nos ajustar. Por exemplo: se está prestes a chover e eu empino minha pipa de papel, então ela se destruirá. Ela pode até subir bem, mil metros, mas, quando a chuva vier e eu tentar puxá-la de volta, eu não vou conseguir, pois ela estará destruída. Mas se eu estiver usando minha pipa de plástico, então a chuva não a destruirá e eu conseguirei puxá-la de volta. Da mesma forma, temos que usar nossas várias capacidades e habilidades com cuidado e consciência nas diversas situações em que nos encontramos.

 

Todos os conteúdos © Tai Situ Rinpoche

Original em inglês: The Six Paramitas. Thar Lam, The Path of Liberation, The International Journal of Palpung. Dezembro, 2010. p. 18 – p.29

Traduzido para o português por Cláudia Marcanth

Revisado e editado por Cláudia Carréra

Para mais ensinamentos de Chamgon Kenting Tai Situpa, visite: http://www.greatliberation.org/library/