S.S. Karmapa dá instruções fundamentais de meditação

Retiradas iPad setembro 13 319

S.S. XVII Karmapa

Sua Santidade, o Karmapa passou a manhã com os membros do Karma Thegsum Cholling/New Jersey (KTC-NJ), o centro de Dharma onde ele está atualmente hospedado, no sul de New Jersey. Em uma sessão cujos principais focos foram as instruções de meditação e perguntas e respostas sobre a prática, seguida de uma pausa para fotos do grupo, Sua Santidade ofereceu instruções fundamentais e conduziu uma sessão de meditação para 375 membros do centro.

Da mesma forma como havia feito na sessão pública de ensinamentos no dia anterior, e no mesmo centro, o 17º Karmapa começou dizendo, com aparente sinceridade, que ele mesmo tinha muito pouca experiência em meditação. Entretanto, ele prosseguiu com um tipo de ensinamento sobre instruções fundamentais de meditação que fez com que a audiência admirasse ainda mais a sua humildade.

O Karmapa comentou que uma das formas de meditação mais conhecidas é aquela em que o indivíduo se concentra unicamente em sua própria respiração. “Uma das razões para isso”, explica ele, “… é porque respiramos o tempo todo. Uma vez que nossa respiração é contínua e involuntária, ela não precisa ser forjada para o propósito da nossa meditação. E isso só ressalta o fato de que o objetivo da meditação não é a busca de novas experiências ou a conquista de novos estados. Pelo contrário, continuou ele – nós percebemos nossa respiração direcionando nossa mente para algo que já está acontecendo, sem alterar ou criar qualquer estado ou experiência. “Nós simplesmente usamos a consciência de nossa respiração como um foco para desenvolver a habilidade da mente de tornar-se consciente de um determinado objeto”, completou o Karmapa.

“Eu acredito que há outra boa razão para colocar o foco da mente na respiração, ” acrescentou ele. “A respiração é criticamente necessária para nos mantermos vivos – afinal de contas, se pararmos de respirar, pararemos de viver. Normalmente não prestamos muita atenção nesse fato, simplesmente o aceitamos como se fosse uma coisa certa e garantida. Desse modo, voltar a nossa mente para a respiração desperta em nós uma maior apreciação por estarmos vivos, um senso de contentamento ou de regozijo pelo fato de que ainda estamos vivendo. ”

O Karmapa então falou sobre os métodos usados para a meditação na respiração, observando que um destes métodos é o de contar as respirações. “Mas, ” observou ele, “contar pode ser difícil e ainda tornar-se uma distração. Isso depende do indivíduo, mas, para muitas pessoas, o uso da técnica de contar a respiração é problemático. Há outras tradições nas quais não se usa contar as respirações. O indivíduo simplesmente observa entrada e a saída do ar, permitindo que sua mente permaneça meramente consciente da respiração e também permitindo que sua mente repouse no ato de inspirar e expirar. Eu acho que isso pode ser melhor do que contar as respirações. ”

“E quanto ao modo de respirar quando alguém está dirigindo sua mente para a respiração, ” continuou S.S., “a pessoa deve respirar naturalmente, como sempre respirou. Não deve haver nenhuma manipulação ou controle da respiração. Você não deve tentar inspirar e expirar com mais força e nem reduzir ou aumentar o ritmo da sua respiração. Eu estou mencionando isso porque às vezes as pessoas acham que a meditação na respiração envolve alguma técnica de manipulação ou controle da respiração, mas o fato é que, nesse caso, não existe técnica alguma. A respiração é um ato usual e ordinário, que não exige qualquer esforço especial. ”

“O ponto mais importante nesse caso, ” disse ele, “é que enquanto respiramos dezenas de milhares de vezes todos os dias, nós geralmente não prestamos atenção nisso e, na maior parte das vezes, não estamos sequer conscientes de que estamos respirando. Simplesmente continuamos a respirar, sem notar. O que estamos tentando fazer aqui é perceber nossa respiração dirigindo a atenção de nossas mentes para o ato de respirar propriamente dito. ”

Sua Santidade, então, conduziu uma sessão de meditação entre os presentes. O Karmapa brincou dizendo que, já que ele não meditava muito, ele também era inexperiente em tocar o gongo para sinalizar o começo e o final da sessão de meditação.

Depois de meditarem juntos, S.S. compartilhou mais reflexões. “Um dos problemas que pode acontecer quando estamos meditando dessa forma é a sensação de que a respiração parou, ou a de que o indivíduo sente como se não conseguisse mais respirar. Eu penso que isso às vezes é causado pela nossa postura física ou pelo nosso estado físico em que estamos no momento – podemos estar resfriados ou congestionados, por exemplo. Desse modo, acho que quando temos essas sensações estranhas em relação à nossa respiração durante a meditação, na verdade, tais sensações já estavam presentes antes da meditação, mas não as tínhamos notado – mas, uma vez que nos conscientizamos da nossa respiração ao meditarmos, elas se sobressaem e nós as percebemos. ”

Ele então comentou sobre a correta postura para a meditação. “Somos ensinados de que devemos ter uma postura reta e ereta”, disse o Karmapa. “Você pode se sentar de pernas cruzadas ou em uma cadeira, não faz diferença. O mais importante da postura, nesse caso, é que ela permita que a sua respiração aconteça de maneira fácil e relaxada. ”

Como a sessão de ensinamento ia chegando ao fim, Sua Santidade fez algumas observações finais. “O objetivo da prática da meditação”, disse ele, “é retornar à nossa própria natureza e sustentar o estado natural de nossa mente. É como voltar para casa depois de uma viagem, quando tudo o que queremos é conseguirmos repousar e relaxar. E é por isso que podemos dizer que a meditação não é a alteração da condição natural da mente e nem a sobreposição ou exageração de qualquer coisa. Em se tratando da prática da meditação shamata, o ponto mais importante é o seguinte: o que estamos querendo fazer é repousar as nossas mentes em seu estado natural e comum. ”

Quando Sua Santidade sugeriu que o tempo restante que tinham juntos fosse dedicado a perguntas e resposta, uma fila no corredor central se formou rapidamente. Por mais de meia hora, o Karmapa respondeu a cada pergunta feita a ele, mas a fila continuava a crescer. S.S. então pediu que todos na fila enunciassem suas perguntas para que ele pudesse resumi-las e respondê-las no tempo restante.

Em meio a uma série de questões sobre prática pessoal, uma estudante comentou que ela tinha devoção pelos seus professores espirituais, mas que enfrentava conflitos com seus amigos do Dharma. Sua Santidade respondeu que as pessoas devem lidar com os amigos do Dharma da mesma forma com que lidam com seus professores espirituais. “Como abelhas extraindo o néctar, nós devemos colher o que é bom de nossos amigos do Dharma, assim como o fazemos com os nossos professores espirituais. Fique com a parte virtuosa e deixe o resto para lá”, disse ele.

Uma das últimas pessoas a fazer a sua pergunta mencionou que havia percebido um conflito entre o desejo de se libertar do samsara e a ambição que é instilada nos jovens para que tenham sucesso em suas vidas, como por exemplo no campo dos estudos ou dos negócios.

Sua Santidade salientou que existe uma distinção entre felicidade aparente e felicidade real, assim como há uma distinção entre aquilo que parece ser sofrimento e o sofrimento real. Para alcançar a felicidade real, as pessoas precisam investigar, por si mesmas, as diferenças entre as formas aparentes e as formas reais do sofrimento e da felicidade. Uma investigação como essa nos inspira a buscar a liberação do sofrimento e a conquista da real felicidade. De qualquer forma, podemos ainda aspirar às conquistas ordinárias ditadas pela nossa ambição – contanto que nós as enxerguemos apenas como objetivos temporários e não como os nossos únicos e mais importantes objetivos.

Clique aqui para ler as outras instruções sobre meditação dadas por S.S. Karmapa.

Original disponível em: http://kagyuoffice.org/ktc-nj-members-receive-pith-meditation-instructions/

Traduzido para o português por Cláudia Marcanth.

Revisado e editado por Cláudia Carréra.