Ensinamentos de Gyalwang Karmapa sobre Carta a um Amigo, de Nagarjuna (Relato detalhado) – 1ª Parte

S.S. XVII Karmapa

S.S. XVII Karmapa

Descrevendo o ambiente – De manhã cedo, Monastério Tergar

Sessão Um: Domingo – parte da manhã

O seguinte resumo dos ensinamentos matinais é baseado na tradução, realizada por Ringu Tulku Rinpoche, do tibetano para o inglês, exceto nos trechos onde Gyalwang Karmapa expressou-se diretamente em inglês.

Os ensinamentos deveriam ter começado pontualmente às nove horas da manhã. Gyalwang Karmapa estava esperando, sentado em seu trono majestosamente alto, dourado e intrincadamente entalhado. A equipe do som estava confiante. Tinham sido horas de preparação para instalar o sistema de som: microfones, auto falantes e um sistema de transmissão de tradução por FM. No último teste, tudo tinha funcionado perfeitamente; mas, ainda há pouco, de repente, os apetrechos pareciam ter adquirido vida própria e começaram a emitir ruídos agudos, guinchos e chiados. A audiência aguardava sentada, pacientemente, enquanto a equipe de som corria para cima e para baixo, mexendo em montanhas de equipamentos, antenas, cabos e microfones. Sua santidade sorria, fazia caretas e dava tapinhas no microfone para testá-los. Finalmente os problemas foram resolvidos e os ensinamentos começaram.

Tendo cumprimentado todos calorosamente, Gyalwang Karmapa explicou por que havia escolhido aquele texto em particular (Carta a um Amigo) – porque o texto não apenas cobria totalmente a filosofia de Madhyamika, mas também dava instruções às famílias sobre como praticar o Darma. Na Índia antiga, os leigos que mantinham os cinco preceitos[1] estudavam o texto de Nagarjuna. Sua Santidade tinha esperanças de que aquele ensinamento pudesse oferecer uma nova perspectiva aos estudantes não monásticos sobre como ser um leigo e praticar o Darma ao mesmo tempo. Uma nova edição do texto, contendo a versão original em tibetano e suas traduções em hindi, chinês, coreano, espanhol, francês e alemão havia sido publicada especialmente para a ocasião[2]. Gyalwang Karmapa apontou para a ilustração da capa, um desenho retratando Nagarjuna que ele mesmo havia desenhado, e com um tom divertido, comentou que algumas pessoas tinham reclamado: “O rosto não mostra grande caráter e o corpo lembra um rochedo.” Sua Santidade declarou que, embora tivesse esperanças de conseguir abordar o texto completamente, não haveria tempo suficiente para cobrir todas as estrofes; dessa forma, Seu objetivo seria transmitir o significado essencial, parando aqui e ali para dar maior atenção a alguns pontos e passando rapidamente por outros.

Voltando-se para o texto em si, Gyalwang Karmapa então leu e fez seu comentário sobre os três primeiros versos, que formam uma introdução ao ensinamento e às instruções mais detalhadas e requerem que as pessoas prestem atenção aos ensinamentos.

 

Estrofe 1:

Ó virtuoso, digno por natureza do que é bom,

Compus estas “rimas nobres” para vos incutir

Aspiração pelo mérito proveniente dos ensinamentos dos Sugatas.

Trata-se de obra curta, para a qual deveis atentar.

 

O Karmapa contou que o autor dos versos, Nagarjuna, foi um grande erudito que, dizem, viveu durante o primeiro ou o segundo século de nossa era. Principal expoente da escola Madhyamika da filosofia budista, ele escreveu o poema Carta a um Amigo – um texto que se debruça sobre as seis paramitas – a um amigo seu, Surabhibhadra, um rei do sul da Índia. Esse é um dos numerosos textos escritos por Nagarjuna que hoje estão preservados na literatura tibetana. Entre os textos em questão, encontram-se vários comentários sobre o sutra e importantes textos sobre o tantra – o que revela que o autor era um praticante de ambos. Foi ele que compôs o texto que deu origem ao Madhyamika:  Mula-Madhyamaka-karika. Foi ele também que trouxe para a tradição Mahayana os sutras da Perfeição da Sabedoria [Prajnaparamita]. Existem duas versões sobre como isso aconteceu. Uma conta como o Rei dos Nagas deu esses livros a Nagarjuna; a outra, de origem chinesa, vem de uma biografia de Nagarjuna escrita pelo grande erudito indiano Kumarajiva, que viajou para a China e traduziu muitos textos budistas para a língua chinesa. De acordo com Kumarajiva, Nagarjuna teve uma visão em que ele entrava em um palácio coberto de pedras preciosas e ali encontrava um grande bodhisattva que mostrava-lhe várias urnas contendo sutras que ele nunca havia visto antes. Quando Nagarjuna despertou dessa visão, escreveu tudo o que tinha lido durante a visão: as 100.000 estrofes do Sutra da Perfeição da Sabedoria.

Embora Carta a um Amigo tenha sido escrita especificamente para o rei Surabhibhadra, ela também se aplica aos outros, incluindo nós mesmos – comentou Gyalwang Karmapa. Na primeira estrofe, Nagarjuna diz que todas as suas instruções vêm das palavras sagradas de Buda e de nenhuma outra fonte; e que o propósito delas é gerar um desejo de agir positivamente.

 

Estrofe 2:

Homens sábios veneram imagens dos Sugatas feitas de

Madeira ou outros materiais, seja qual for a sua aparência.

Da mesma forma, embora este meu poema seja pobre, não o

Desprezeis, pois está baseado nos ditos do Darma Sagrado.

 

Mesmo que uma estátua de Buda não seja feita de material nobre, as pessoas sábias honram essa imagem. De maneira similar, embora essas instruções tenham sido escritas por um simples monge, a fonte é Buda, logo é digna de ser ouvida.

 

Estrofe 3:

Embora possais haver mesmo compreendido

Todas as palavras aprimoradas do Grande Muni,

Aquilo que é feito de giz não se torna

Ainda mais branco sob a luz da lua de inverno?

 

O texto se refere ao Grande Muni, aquele que é muito capaz e que tem poder para derrotar os kleshas (aflições). Nagarjuna diz que, mesmo que você já conheça os ensinamentos do Grande Sábio, vale a pena prestar atenção nesses versos porque uma construção feita de giz ou gesso brilha ainda mais claramente sob a luz da lua.

Sua Santidade explicou que é importante aprender coisas que ainda não sabemos, mas que as coisas que já sabemos precisam ser internalizadas. Esse é um processo de três etapas – escutar ou estudar, pensar e meditar. Inicialmente precisamos estudar, aplicando nossa sabedoria e intelecto.

 

Estrofe 4:

O Jina proclamou as seis

Lembranças: Buda, Darma, Sangha,

Generosidade, Moralidade e os Deuses.

Recordai cada uma de suas várias virtudes.

 

A quarta estrofe introduz as instruções propriamente ditas, que estão organizadas em três tópicos principais. O primeiro tópico aborda a prática das virtudes positivas; o segundo está relacionado ao entendimento da natureza do samsara e ao sentimento de renúncia; e o terceiro aponta para os benefícios da liberação. As primeiras instruções gerais aplicam-se tanto aos leigos como aos monásticos: seis itens aos quais devemos dedicar a nossa atenção: Buda, Darma, Sanga, generosidade, moralidade e deidades.

Gyalwang Karmapa parou por um momento, inspecionou o auditório e comentou, em inglês, que o chá tradicional não seria servido durante os ensinamentos aos estrangeiros.

“Sem pausa para o chá” – disse ele – “espero que minhas palavras transformem-se em chá.”

Ele então, começou a discutir o significado, na tradição budista, de tomar refúgio nos três objetos de refúgio: Buda, Darma e Sanga.

Nesse momento, a transmissão em FM parou de funcionar e os membros da audiência começaram a gesticular ansiosamente, indicando que eles não estavam conseguindo ouvir as palavras do Karmapa.

“Vocês conseguem me ouvir?” – perguntou o Karmapa, olhando para a audiência. As pessoas balançaram suas cabeças para responder que não estavam ouvindo. Quando Gyalwang Karmapa se deu conta de que a audiência não estava conseguindo ouvir as transmissões das traduções simultâneas, gracejou, em inglês: “É o FM que não está funcionando ou é a mente que não está funcionando?” Todos riram. Ele, então, aconselhou-nos a meditar sobre a paciência enquanto a equipe do som trabalhava para resolver o problema.

Poucos minutos mais tarde, com o problema do som já solucionado, Gyalwang Karmapa deu prosseguimento aos seus ensinamentos sobre a tomada de refúgio. Ele afirmou que, de um modo geral, é difícil diferenciar budistas de não budistas, mas que o refúgio, se bem compreendido, permite que uma linha seja demarcada entre ambos. Três coisas devem ser consideradas: a pessoa que toma refúgio, os objetos de refúgio e a natureza do refúgio. Em relação às pessoas que tomam refúgio, o Karmapa explicou que elas podem ser divididas em três categorias, de acordo com as três capacidades dos seres. Aquelas que têm pequena capacidade tomam refúgio com a motivação de que não querem sofrer nos reinos inferiores. Aquelas que têm média capacidade conseguem entender que a natureza do samsara é o sofrimento e a insatisfação e querem se liberar de ambos; e esse desejo é a sua motivação para tomar refúgio. Aquelas que têm grande capacidade, graças a sua enorme compaixão, são motivadas a tomar refúgio pelo desejo de liberar todos os seres sencientes do samsara.

Algum tempo antes, durante os ensinamentos proferidos durante o Gunchoe [um encontro anual da linhagem Karma Kagyu], Sua Santidade havia levantado a questão sobre a relação entre os budistas e o renascimento – “Quem não acredita em renascimento pode ser classificado como budista?” Agora o Karmapa retornou ao dilema, discutindo se era possível ou importante para as pessoas que não acreditam em renascimento e na existência cíclica tomar refúgio. Ele disse que não estava muito seguro se tomar refúgio seria algo que deveria ser feito por pessoas como essas. Ele também esclareceu o propósito de diferenciar as pessoas de acordo com suas capacidades. Seria errado pensar em termos de que uns são melhores do que outros. Isso poderia nos levar a tentar fazer algo que estivesse além de nossas capacidades. As categorias existem para nos ajudar. Nós precisamos examinar nosso próprio estado mental e decidir qual é o ponto de partida mais adequado para nós. Desse modo, seremos capazes de progredir gradualmente e naturalmente, passo a passo, baseados em nossas aspirações em cada momento de nossa caminhada. Seria também errado olhar os outros com desdém por causa das suas diferentes aspirações.

Passando ao assunto dos objetos de refúgio, Gyalwang Karmapa primeiramente levou em consideração o Buda histórico. Nascido há mais de 2.500 anos, Buda veio a esse mundo como um príncipe que vivia uma vida luxuosa e protegida. Após renunciar ao samsara, Buda passou por seis árduos anos de meditação antes de finalmente atingir a iluminação. O Karmapa explicou que essa era a biografia de Buda, como ser humano – um bhikkshu que se tornou um Buda. A palavra tibetana para Buda – sangye – tem duas partes: sang significa liberar-se da ignorância; e gye significa vastidão, no sentido de que a mente ou a sabedoria torna-se vasta.

Nesse ponto, Gyalwang Karmapa fez um trocadilho em hindi/sânscrito. Em hindi, a palavra budhu significa “idiota”, mas, ao alterarmos algumas letras, obtemos a palavra buddha, daí que podemos dizer que todos nós podemos passar de budhus para Buddhas.

Buda, a suprema emanação, revelou as Quatro Nobres Verdades aos seus cinco discípulos em Sarnath e, nesse momento, todos eles experimentaram o verdadeiro Darma. O Darma tem duas partes: a verdadeira cessação e o verdadeiro caminho – que significam a experiência da liberação e o caminho [que conduz a essa experiência]. A cessação ocorre quando todo o karma está esgotado e as emoções negativas completamente extintas. Sua Santidade enfatizou que a cessação não era para ser entendida em um sentido niilista, como uma forma de anulação, mas como uma experiência de completa felicidade, parecida com aquela sensação de alívio e bem-estar que experimentamos quando ficamos totalmente curados de uma longa e dolorosa doença. O verdadeiro caminho é a clara compreensão que conduz à liberdade.

Finalmente, o terceiro objeto de refúgio é a nobre Sangha, conjunto de pessoas que experimentam a cessação e o caminho.

Em relação ao modo como tomamos refúgio, existem três coisas a serem levadas em consideração: nossa motivação, a profundidade de nosso refúgio (que depende da nossa motivação), e o grau da nossa fé e devoção.

Quando conseguimos entender e avaliar o sofrimento dos três reinos inferiores, o medo de passar por tal sofrimento nos impele a buscar a liberação do samsara e a obtenção da iluminação. É importante compreender que “medo”, nesse caso, não se refere somente a ficar amedrontado, mas também a perceber as desvantagens do samsara. Tendo visto o seu lado negativo, nós passamos a ter convicção de que devemos nos libertar da existência cíclica. Sua Santidade nos alertou que sermos guiados somente pelo medo é o caminho para a loucura. Também é essencial entender claramente que só devemos temer o samsara; os objetos de refúgio nunca devem tornar-se fontes de medo. Pelo contrário, eles são fontes de falta de medo. A questão do medo também se aplica aos compromissos [samaya] no relacionamento entre o guru e o discípulo na tradição Vajrayana. O guru deve ser visto como nosso melhor amigo, aquele que vai sempre nos ajudar, não importa em que situação estejamos – portanto, de uma certa forma, é inapropriado ter medo do guru, no que se refere à quebra de samaya. 

Em relação à fé e devoção, Sua Santidade observou que, embora os discípulos estrangeiros comumente passem pelo processo de primeiramente examinar os ensinamentos budistas, depois convencer-se e, finalmente, tomar refúgio (o que significa que sua fé é baseada em um claro entendimento); o processo para os tibetanos e para aqueles que nascem em famílias budistas é geralmente diferente. Estes últimos talvez não tenham passado pelo processo de compreensão mental; mas podem ter, mesmo assim, desenvolvido grande fé e devoção. Entretanto, quando consideramos fé e devoção, é crucial que tenhamos um correto entendimento de como os objetos de refúgio podem nos ajudar; se isso não ficar claro, muitos problemas podem surgir. A fé pode se degenerar e virar fé cega ou superstição. Sua Santidade ilustrou esse ponto com eficácia e humor dando três exemplos de fé cega em ação. Para os budistas, Buda é a corporificação da compaixão, do amor generoso e da bênção; mas uma pessoa guiada por uma fé cega pode supor que Buda, com sua enorme compaixão, vai tomar conta de tudo. Alguém que joga a sua roupa suja em um canto achando que Buda vai lavá-las acabará com uma pilha de roupas sujas. Se, em meio a uma nuvem de mosquitos, alguém acreditar que Buda vai protegê-lo das picadas, terminará sendo seriamente picado. Um estudante que, em vez de estudar duro para passar nas provas, conta apenas com a sua fé cega em Buda, vai terminar tirando vários zeros. Buda ensinou o caminho, mas nós devemos praticá-lo. Buda está em um mundo diferente – numa terra pura – e não pode nos transformar em seres iluminados. Temos que fazer esse trabalho nós mesmos. Se você então pergunta: “Por que precisamos das Três Joias?”, a resposta é que precisamos saber qual é o caminho e de alguém que nos instrua. Buda mostra o caminho e nós devemos seguir por aquela trilha, trabalhar com afinco e aí, sim, teremos resultados. Após tomarmos refúgio, precisamos continuar a trabalhar duro.

Quem são então as pessoas da nobre Sangha? Nos sutras da tradição Hinayana está escrito que alguém que cumpre uma disciplina ética, que atingiu um nível estável de meditação, que gerou sabedoria, que está satisfeito e que abandonou todas as aflições pode ser visto como membro da nobre Sangha. Tais pessoas estão no caminho e, se continuarem a praticar as dez ações virtuosas [3], atingirão a iluminação, sem dúvida. Por causa de suas qualidades, as dez ações virtuosas continuarão a crescer e melhorar.

No fim das contas, o resultado final depende de nós.

 

Sessão Dois: Domingo – parte da tarde

 

Depois de efetuar três prosternações e orações, Sua Santidade continuou a transmitir Seus ensinamentos sobre Carta a um Amigo, de Nagarjuna, na tarde de 20 de dezembro de 2009.

 

Existem benefícios que surgem a partir do processo de trazer à mente os deuses que vivem em reinos superiores. Para chegar nesses reinos, os deuses precisaram desenvolver suas práticas de permanência na tranquilidade [4] (shamata), sempre conscientes de que seus progressos podem ter o efeito positivo de fazer com que os outros fiquem mais generosos e despertos. Também podemos nos lembrar que, para alcançarem um renascimento em um reino superior, os deuses tiveram que se engajar em numerosas ações virtuosas. Devemos pensar, portanto, em como os deuses fizeram para conquistar seus renascimentos. Tornar-se um deus poderoso é o resultado de atitudes positivas.

Sua Santidade, então, leu em voz alta a quinta estrofe:

 

Estrofe 5:

Praticai constantemente os dez caminhos do carma virtuoso

– Por meio do corpo, fala e mente.

Abstende-vos de substâncias inebriantes e, em contrapartida,

Comprazei-vos com um modo de vida virtuoso.

 

As dez ações salutares ou virtuosas existem para evitar as dez ações não salutares ou não virtuosas. Devemos entender por que é tão importante seguir esse ensinamento: porque ele nos leva para longe do que não está em harmonia com o Darma e nos traz para perto do que está.

No Vinaya, o modo de vida positivo é enfatizado através do respeito pelas regras de conduta. Há muito o que ser dito a esse respeito, mas não teremos tempo para isso agora. Dessa forma, vamos nos ater ao modo de vida do leigo que desenvolve respeito pelo Darma.

Primeiro, vamos pensar nos votos. Tomar refúgio nas Três Joias é a base para todos os outros votos. Qualquer tipo de voto budista que queiramos tomar é baseado no refúgio. Ao tomarmos refúgio, podemos nos tornar um upasaka (um leigo que tomou votos). A promessa inicial que fazemos quando tomamos refúgio é não fazer mal aos seres vivos e abstermo-nos da violência. A primeira prática do Budismo é não fazer mal aos outros. Abster-se de provocar sofrimento, aliás, é a base do Hinayana.

Não provocar sofrimento pode ser entendido em termos de evitar as dez ações não virtuosas: as três relacionadas ao corpo (matar, roubar ou manter conduta sexual inapropriada); as quatro relacionadas à fala: (mentir, usar palavras ríspidas, tagarelar e criar intrigas); e as três relacionadas à mente (desejar fazer mal aos outros, invejar e adotar um ponto de vista errôneo). Todas essas ações prejudicam os outros. Se formos capazes de purificar nossas mentes, eliminaremos as ações não virtuosas e a própria base delas.

A mente é a base das primeiras sete ações não virtuosas do corpo e da fala – que machucam os outros diretamente. Se as três ações mentais negativas não estiverem presentes, então, as ações negativas do corpo e da fala não acontecerão. Se eliminarmos as ações negativas e as aflições (kleshas) da nossa mente, nós naturalmente teremos uma mente que beneficia os outros porque as dez ações negativas da mente nascem das aflições de ódio, de desejo excessivo e de ignorância. Consequentemente, abrir mão de tudo isso está diretamente relacionado a não fazer mal aos outros.

O Hinayana também fala sobre não provocar sofrimento aos outros. Às vezes podemos pensar que o Mahayana é o único caminho para a compaixão, mas isso não é completamente verdadeiro. A extensão da compaixão pode variar – na tradição Mahayana a aspiração é para todos os seres vivos; e no Hinayana existe um desejo muito forte de não fazer mal aos outros. Se falarmos apenas sobre a questão de não fazer mal aos outros, é difícil separar o Hinayana do Mahayana.

Motivação é muito importante. No começo, podemos ter uma boa motivação, mas se não trabalharmos para eliminar a nossa negatividade, correremos o risco de fazer mal aos outros mais tarde. A meditação nos ajuda a trabalhar nossas aflições. Com a meditação podemos, por exemplo, aprender a dominar e controlar nossa raiva. E, com a meditação, em geral, nossa mente fica mais flexível também. Se não meditarmos, poderemos até começar com a intenção de ajudar os outros, mas é possível que nossa negatividade retorne e subverta o que estamos tentando fazer e, nesse caso, podemos terminar provocando sofrimento aos outros.

De acordo com o Abhidharmakosha, as primeiras sete ações negativas (as três do corpo e as quatro da fala) são ações cármicas; as três ações negativas da mente não são ações cármicas, mas criam o caminho através do qual as ações acontecem.

Se cometermos uma ação negativa, podemos tomar uma firme resolução de não fazer isso de novo. Após isso, devemos purificar a nossa negatividade em frente a um suporte do Darma, como uma estátua ou uma imagem de Buda, por exemplo. Nossa motivação deve ser forte a ponto de estarmos dispostos a colocar nossas vidas em risco a fim de não cometermos mais ações negativas.

Se tomarmos como exemplo a ação negativa de matar, então perceberemos que ela começa com rejeição ou aversão. Nesse ponto, entretanto, a ação não foi consumada e ainda temos tempo para interromper seu curso. Há diversas etapas nesse processo onde podemos repetir para nós mesmos que existem muitas razões para não matarmos e abandonarmos nossa intenção de fazê-lo. Se conseguirmos dominar nossa intenção de matar em alguma dessas etapas, então a ação não será completada. Dessa forma, a intenção é o elemento mais importante e pode nos ajudar a impedir que a ação negativa efetivamente ocorra.

Vocês podem pensar que as três ações negativas da mente acontecem tão rapidamente, que não há tempo para mudá-las. Mas é, sim, possível mudá-las. Por exemplo: suponha que você queira muito ter um certo computador. Primeiro você pensa no computador – o quão importante ele é para a sua vida; o quão bonito, o quão útil ele é e assim por diante. Você considera todas as boas coisas relacionadas a esse computador e se convence de que precisa ter exatamente aquele computador. Com ele sua vida ficará melhor e você finalmente ficará feliz. Por outro lado, se você não tiver o tal computador, sua vida será horrível. E então você pensa: “Eu definitivamente tenho que ter esse computador.” Sua mente se restringe a esse objeto e emperra. Mas, como já foi dito, há várias ocasiões, dentro desse processo, onde podemos agir para interrompê-lo. Primeiro, temos o pensamento relacionado à emoção negativa, depois a emoção liga-se a um objeto, e, finalmente, realizamos a ação negativa.

Devemos estar atentos, alertas e conscientes porque esses padrões se repetem. Quando os problemas aparecem, eles criam uma ocasião para que as aflições venham à tona. Desse modo, devemos nos esforçar continuamente para identificar e interromper os pensamentos negativos.

Trabalhar nossas mentes é especialmente importante, porque ela é a fonte das nossas ações físicas e verbais. Se não fizermos isso, nossas ações negativas passam a se comportar como ladras dos nossos méritos e virtudes. Se nos envolvermos com quaisquer das dez ações negativas, acumularemos carma. Em razão disso, nossa intenção de melhorarmos e fazermos progressos e mudanças é muito importante. Se não tivermos essa motivação positiva, será muito difícil conseguirmos transformações para nós mesmos. A atenção e a consciência surgem a cada momento e devemos tentar manter esse continuum, sem distrações, pois as ações negativas podem ser detidas pela atenção.

A terceira ação negativa relacionada à mente é a adoção de pontos de vista errôneos. No Abhidharmakosha é dito que, para os monásticos, é difícil evitar pontos de vista errôneos porque os monásticos dependem de outras pessoas: eles mendigam por comida e contam com as doações das outras pessoas. Isso pode fazer com que eles digam ou façam algo com a intenção de receber as oferendas; diante de seus benfeitores, eles podem dançar imitando macacos, por exemplo.

Para os leigos, é difícil evitar os pontos de vista errôneos devido à maneira pela qual eles usam as adivinhações Mo [forma de adivinhação que é parte da cultura e da religião do Tibete]. Quando encontram dificuldades, os leigos tendem a procurar um Mo. Eles também praticam o Dzambhala para acumular riquezas; e a Tara, quando estão doentes. Essa não é a forma certa de aplicar o Darma porque, agindo desse modo, estamos tentando usar o Darma para obter benefícios mundanos. Esses são os tipos de erros que os leigos cometem.

Na verdade, o Buda já fez um excelente Mo para nós. Ele disse que se nos engajarmos em atitudes virtuosas, os resultados serão virtuosos; se nos engajarmos em atividades negativas, os resultados serão negativos. Isso é muito claro. O Mo mais efetivo é praticar a virtude.

Tomar votos é muito útil no combate às ações negativas. Os votos dão constância para as nossas ações e proporcionam uma força contrária às nossas tendências negativas. Eles também servem como uma base para a consciência. Há centenas de formas de se tomar votos. Uma delas está relacionada com o número de pessoas. Por exemplo: em primeiro lugar, meditamos em não matar; em segundo lugar, podemos fazer um voto de não machucar uma determinada pessoa, um grupo de pessoas ou nenhuma pessoa. Em termos de tempo, podemos tomar votos por um dia, um mês, um ano, ou até morrermos. Vocês também podem tomar um voto de não matar ou roubar um Karmapa. (RISOS)

Se alguém faz um voto para abrir mão de uma, de várias, ou ainda de todas as ações negativas, nós devemos louvar e encorajar o votante; e também nos alegrarmos por ele. Devemos todos tentar evitar as dez ações negativas.

Outro modo de trabalharmos as aflições é procurar entender como elas surgiram. Podemos examinar: de onde vem essa ação negativa? Em que lugar ela se alojou em nós? Para onde ela está se movendo?

 

Os últimos versos da Estrofe Cinco dizem:

Abstende-vos de substâncias inebriantes e, em contrapartida,

Comprazei-vos com um modo de vida virtuoso.

Tais versos se aplicam igualmente aos leigos e à Sangha ordenada. Para os leigos que tomaram votos, existem formas negativas de ganhar a vida, como vender álcool, veneno, matar os outros e vender carne. Entretanto, as ações negativas principais estão todas contidas dentro das dez que devemos abandonar. Também devemos praticar as seis paramitas. Estas são muito importantes.

 

Sessão de Perguntas e Respostas

Pergunta: Quando estamos longe do nosso lama-raiz, às vezes choramos de saudade. Isso é insano?

Resposta: Não exatamente. Quando nos lembramos das qualidades positivas do nosso professor e isso nos leva a chorar, isso é devoção. É algo positivo e forte. Se você está com excesso de devoção, poderia doar um pouco dela para mim. (RISOS)

Pergunta: Como deveríamos compreender os oito darmas ou preocupações mundanos [5]?

Resposta: Podemos entender os oito (perda e ganho, elogio e culpa, prazer e dor, fama e infâmia) como pertencentes a três tipos: branco, preto e misturado. O darma preto é a preocupação apenas por essa vida – pensamos só no nosso próprio benefício e não no dos outros. O darma branco é a preocupação com os outros. O darma misturado é o que a maioria de nós tem: preto e branco juntos. O Darma Genuíno não é apenas para essa vida, mas para a vida após a vida.

 

Sessão Três: parte da manhã

 

O resumo seguinte dos ensinamentos da parte da manhã é baseado na tradução do tibetano para o inglês realizada por Ringu Tulku Rinpoche.

Gyalwang Karmapa começou fazendo uma revisão da discussão de ontem sobre disciplina ética, enfatizando que a prática de disciplina ética é importante para o mundo porque ela tem o poder de transformar a sociedade. Comportar-se eticamente significa abandonar a dez ações não virtuosas. Para os leigos que tomaram votos, adotar um comportamento ético pode também ser útil em termos individuais; um casal que discute pode, por exemplo, mudar seu comportamento e criar um relacionamento harmonioso.

Gyalwang Karmapa continuou seu ensinamento com a exposição da sexta estrofe. Ele explicou que as estrofes anteriores eram aplicáveis tanto a leigos como monásticos, mas que a sexta estrofe está direcionada especificamente para os leigos.

 

Estrofe 6:

Reconhecendo que a riqueza é efêmera e insubstancial,

Exercei-vos adequadamente em atos de generosidade ,

Em prol de bhiksus, brâmanes, pobres e amigos.

No futuro não haverá amigo melhor que a generosidade.

 

A estrofe 4 mencionava as seis paramitas. Uma das paramitas é a generosidade. Três coisas precisam ser consideradas em relação à generosidade: os objetos, os motivos e os benefícios. A estrofe seis explica a importância da generosidade e indica quem são mais merecedores de recebê-la. Existem dois tipos de objetos: os mais nobres – aqueles que são fontes de boas qualidades, tais como os brâmanes, os monges e as monjas e os que são fontes de benefícios, como os nossos pais e mães; e os menos nobres, tais como os pobres e os desvalidos. O motivo para dar é que, uma vez que a riqueza é impermanente e instável (e a crise econômica atual é uma prova disso), o meio mais efetivo de usar nossa riqueza é compartilhando-a, mesmo quando temos pouco para oferecer.

O benefício de dar é que, mesmo que você dê somente um pouco, isso será suficiente para estabelecer predisposições para as vidas futuras e garantir o renascimento em condições favoráveis, com bons recursos.

 

Estrofe 7:

Vós deveis praticar moralidade inquebrantável e não-aviltada –

A moralidade não-conspurcada, imaculada e incorrupta

Foi declarada a base de todas as virtudes,

Da mesma forma que a terra está para todas as coisas móveis e imóveis.

 

Essa estrofe é uma instrução para monges e monjas. Os monásticos tomaram votos de disciplina ética e é importante que tais votos não se degenerem. Precisamos deixar de provocar todo e qualquer sofrimento aos outros. As ações a serem abandonadas são as sete do corpo e fala e as três da mente (que são as causas das primeiras). Nosso treino para abandoná-las, portanto, deve ser falando, pensando e meditando. A disciplina ética deve ser incorrupta – no sentido de que não deve ser praticada apenas devido a preocupações com essa vida. A disciplina ética também deve ser imaculada – no sentido de que não deve ser praticada apenas com vistas a futuras vidas. A base para as nossas ações virtuosas deve ser a busca para atingir a liberação e a onisciência. O Três Preceitos são: ética, concentração e sabedoria. E a disciplina ética é o meio de alcançar os Três Preceitos. Sua Santidade observou que, se não pudermos controlar corpo e fala, não conseguiremos controlar nossa mente. Até para escutar, pensar e meditar precisamos de uma mente direcionada e isso é muito difícil de desenvolver sem a base de uma disciplina ética.

 

Estrofe 8:

Generosidade, moralidade, paciência, esforço, meditação

E igualmente sabedoria; desenvolvei estas incomensuráveis

Paramitas e, tendo cruzado o mar da

Existência, tornai-vos Senhor dos Vitoriosos.

 

Essa estrofe dá instruções mais detalhadas para os monges e as monjas e enumera as seis perfeições [paramitas].

Como está dito no Madhyamika-avatara, se a disciplina ética existe, as outras cinco perfeições crescem e aumentam, mas, sem ela, é muito difícil que isso aconteça. Tornar-se um bodhisattva não é fácil. Um bodhisattva tem que ter grande habilidade, real compaixão e sabedoria – e é o treinamento de todas as seis perfeições que possibilita que um bodhisattva obtenha essas coisas.

A partir da estrofe 9, Nagarjuna dá detalhadas instruções para os leigos. As instruções estão divididas em três partes e a primeira delas é respeitar nossos pais e mães.

 

Estrofe 9:

Qualquer família que reverenciar pai e mãe

Será assistida por Bhrama e por mestres espirituais.

Seus membros alcançarão renome por venerá-los,

E mais tarde passarão aos estados elevados.

 

Sua Santidade comentou que todos nós viemos de diferentes formações e situações de vida. Ele mesmo teve a oportunidade de encontrar uma ampla variedade de pessoas. Muitas delas nutriam amor e respeito pelos seus pais e mães, mas algumas tinham grande dificuldade de sentir o mesmo pelos seus progenitores. Era necessário, então, explorar meios de fazer com que as pessoas que viviam esse tipo de dificuldade pudessem entender ou identificar-se com essa estrofe. O Karmapa disse que ele mesmo não tinha problemas em amar e respeitar sua mãe ou seu pai. Seu único problema era ter poucas oportunidades para exercer ou demonstrar tal amor e respeito. Ele sugeriu que talvez ele não fosse a pessoa certa para dar instruções para pessoas que tinham problemas com seus pais. Entretanto, existem vários ensinamentos em textos budistas sobre como cultivar paciência, generosidade e compaixão e como ter interesse por todos os seres. O Karmapa aconselhou: aqueles que têm dificuldades em amar e respeitar seus pais poderiam usar esses treinos para abandonar os sentimentos de raiva e ódio e praticar a paciência. Dessa maneira, tais pessoas ficariam livres de sentimentos negativos em relação aos seus pais. Considerando que nós, budistas, devemos praticar a equanimidade e demonstrar amor generoso e compaixão por todos os seres sencientes – sejam eles parentes, amigos ou não – talvez, no caso das dificuldades mencionadas acima, pudéssemos incluir nossos pais e mães no grupo dos “não amigos”. Além disso, precisamos refletir sobre nossa história passada, aprender a perdoar os outros e a nós mesmos; e deixar de lado quaisquer sentimentos dolorosos ou negativos que ainda abrigamos dentro de nós.

 

Estrofes 10 e 11:

Quando alguém evita o mal, o roubo,

Relações sexuais, mentiras, bebidas,

O desejo por comida em momento inoportuno, prazer com um

Posto elevado, canto, dança, várias formas de joias –

 

E toma estes oito preceitos, emulando a prática moral

Dos arhats, isto é posadha– que confere, tanto a homens

Quanto a mulheres, o corpo atraente de um deus

 Do mundo dos desejos.

 

As segunda e terceira estrofes de instruções detalhadas aos leigos encoraja-os a tomar os oito votos sojong do Mahayana[6] – que podem ser divididos em quatro “preceitos-raiz” e quatro “ramos” e são tomados por vinte e quatro horas. Durante o tempo do Buda, este instruiu seus seguidores a observar os preceitos sojong nos dias 08, 15 [do calendário lunar] e assim por diante no mês. Dizem que aqueles que assim o fizeram, ao ouvir uma única palavra de instrução dada pelo Buda, tornaram-se Arhats. Se seguirmos esses preceitos, obteremos grandes benefícios na próxima vida, disse o Karmapa.

Ele, então, introduziu a estrofe 12, que lista ações e atitudes a serem evitadas pelos leigos.

 

Estrofe 12:

Considere como inimigos a avareza, astúcia e impostura,

Apego, ócio, arrogância,

Concupiscência e ódio, presunção por

 Posição social, aparência física, saber, saúde e poder.

 

 

Sessão de Perguntas e Respostas

Pergunta: Quando tenho uma emoção negativa – como o apego, por exemplo – e observo-a, ela fica mais forte. O que devo fazer?

Resposta: Sua Santidade disse que há várias formas de trabalhar as emoções negativas. Ele explicou que às vezes, quando você não gosta particularmente de uma pessoa, é porque algo aconteceu ou ela fez algo com você. Nesse caso, pode ser útil mudar o seu foco, colocar sua mente longe daquela pessoa ou situação, a fim de desativar a raiva. Isso pode ajudar.

Pergunta: É permitido obter o nosso sustento a partir da venda de artigos do Darma com a intenção de beneficiar os outros? Os ocidentais precisam de artigos do Darma.

Resposta: Sua Santidade comentou que havia muitas coisas a serem consideradas nesse caso. Se a motivação for maior do que simplesmente fazer negócios, a venda pode ser permitida; mas precisamos levar em conta como e para quem tais artigos são vendidos. Por exemplo, existe o perigo de vendermos artigos do Darma para pessoas que não irão respeitá-los.

Pergunta: Monges e Lamas comem carne no Tibete, especialmente durante o Losar. É errado fazer isso?

Resposta: Sua Santidade observou que o autor da pergunta parecia conhecer bem os costumes do Tibete! Ele, então, explicou como, historicamente, por causa da geografia, clima e situação do país, as opções alimentares eram muito poucas. Hoje em dia, as coisas mudaram. Novas frutas e vegetais chegaram ao Tibete, particularmente da China. Sua Santidade expressou Suas esperanças de que tais mudanças levassem a novos hábitos na dieta do povo do Tibete e que esta questão dos monges e monjas comerem carne no Tibete deixasse de existir.

Pergunta: Quando há muitos mosquitos, eu os mato. Sinto muito, não gosto de fazer isso, mas como posso impedir que eles me ataquem?

Resposta: Sua Santidade respondeu que esse era um difícil dilema. As condições certas em termos de quarto, telas, redes e repelentes podem ajudar nesse caso. Entretanto, é essencial que nós entendamos que apesar de um elefante ser muito grande e um mosquito muito pequeno, a diferença entre eles é de tamanho e não de valor – ambos são seres vivos. Desse modo, embora um mosquito pareça muito pequeno e insignificante, ele tem vida e é provavelmente errado acabar com ela. Em lugar disso, devemos usar nossas habilidades e recursos para encontrar uma solução que não os machuque. Falando sobre sua experiência pessoal, o Karmapa disse que poucos dias antes ele notara que um aparato contra mosquitos muito usado onde ele estava parecia estar matando os mosquitos. Diante dessa constatação, ele havia decidido não ligá-lo e apenas espantar os mosquitos com as mãos. Sua tática não funcionou e os mosquitos continuaram a picá-lo. Então, ele desenvolveu um genuíno sentimento de doação. “Eu pelo menos estava ofertando o meu sangue livremente; os mosquitos se beneficiam ao recebê-lo e eu obtenho o benefício positivo de doar. Eu estou tentando isso, não estou dizendo que todo mundo deve fazer o mesmo que eu, mas essa é a minha conduta atual em relação ao assunto.”

Pergunta: Poderia Sua Santidade conceder os votos de refúgio, por favor? Como podemos tomar Sua Santidade como nosso guru-raiz?

Resposta: Sua Santidade começou sua resposta dizendo que a questão sobre o guru-raiz é algo que vinha preocupando-O; há algum tempo. Ele explicou que quando usamos o termo guru-raiz, geralmente estamos nos referindo à prática do Vajrayana. O guru-raiz é aquele do qual recebemos uma capacitação, a transmissão oral e as instruções básicas. Entretanto, é possível também termos um “amigo espiritual”. Esse amigo é a pessoa que nos mostra o caminho certo e nos dá instruções sobre o que devemos adotar e o que devemos abandonar.

Gyalwang Karmapa declarou que, pessoalmente, ele sentia que não tinha ainda as qualidades necessárias para ser um guru-raiz; mas que estava trabalhando com afinco para desenvolvê-las e que era sua aspiração alcançar todas as genuínas qualidades que um guru-raiz deve ter. Porém, como muitas pessoas tinham colocado suas esperanças, desejos e confiança na sua figura, ele decidira aceitar o papel de guru-raiz – isso os encorajaria. Sua Santidade acreditava que ele, o indivíduo Ogyen Trinley, não possuía as qualidades para ser um guru-raiz, mas que suas conexões com a linhagem dos Karmapas poderiam ser benéficas para os outros. Desse modo, sempre que ele aceitava ser o professor ou o guru-raiz de alguém, ele visualizava os grandes mestres e inspirava-se neles. É importante compreender que o foco não deve estar nele, como indivíduo, mas na linhagem e nos ensinamentos dela. Mesmo alguém com centenas de qualidades negativas vale ser ouvido se ele puder dar uma única instrução positiva. Sua Santidade lembrou a todos que uma das quatro instruções a respeito da confiança nos ensina a confiar no ensinamento (Darma) e não na pessoa que o transmite. “É o ensinamento que é excelente, não eu” – reafirmou ele. Sua Santidade aconselhou todos a considerar os ensinamentos como o guru principal e vê-lo (o Karmapa) apenas como seu amigo espiritual; dessa forma, não haveria problemas.

Gyalwang Karmapa concluiu a sessão matinal com a transmissão de dois textos: “As Trinta e Sete Práticas de um Bodhisattva”, de Thogme Sangpo; e a prece de dedicação do “Caminho do Bodhisattva”, de Shantideva.

Clique aqui  para ler a última parte desse ensinamento.


Notas da Edição

[1] Para os cinco preceitos, clique aqui

[2] Na tradução desse ensinamento, para as estrofes, utilizamos a versão em português publicada em Carta a um amigo: com o comentário do Venerável Rendawa, Zhön-nu Lo-drö / Nagarjuna; SP: Palas Athena, 1994.

[3] As dez ações virtuosas referem-se às paramitas. Para saber mais sobre as paramitas, clique aqui.

[4] A prática de permanência na tranquilidade é conhecida como Shamata ou Shiné. Para saber mais, leia aqui.

[5] “As oito preocupações mundanas referem-se a um par de quatro preocupações que costumam dominar o estado normal dos seres comuns. Elas são: 1) deleitar-se diante de elogios e abater-se quando menosprezado; 2) deleitar-se quando possuir algo e abater-se quando não possuir; 3) deleitar-se ao ouvir palavras agradáveis e abater-se quando ouvir algo desagradável; 4) deleitar-se com a prosperidade e abater-se diante de infortúnios.” (Em Dalai Lama, Iluminando o Caminho, SP: Fundamento Educacional, 2005. p.158)

[6] Os votos sojong são votos de purificação. Veja mais em: www.kagyu.org/monlam/vows.php   e   kagyuoffice.org/the-29th-kagyu-monlam-day-one-mahayana-sojong-vows

___________________________

Tradução para o português: Cláudia Marcanth

© Kagyu Office – http://kagyuoffice.org/

___________________________

Estrofes em português extraídas de Carta a um amigo: com o comentário do Venerável Rendawa, Zhön-nu Lo-drö / Nagarjuna; São Paulo: Palas Athena, 1994.

O livro Carta a um amigo, em português, faz parte do acervo de nossa Biblioteca e é disponibilizado para empréstimo domiciliar.