Ensinamentos de Gyalwang Karmapa sobre Carta a um Amigo, de Nagarjuna (Relato detalhado) – 2ª Parte

S.S XVII Karmapa

S.S XVII Karmapa

(Clique aqui  para ler a primeira parte desse texto)

Sessão Quatro: parte da tarde

Hoje nós começaremos a falar sobre atitudes equivocadas – ou, de forma mais clara, sobre “o que foi que deu errado.”

Repetindo a estrofe 12:

Considere inimigos, avareza, astúcia e impostura,

Apego, ócio, arrogância,

Concupiscência e ódio, presunção por

Posição social, aparência física, saber, saúde e poder.

Quando as pessoas são mesquinhas, elas não têm capacidade de dar aos outros. Elas não podem dar o Darma e tampouco as coisas materiais – elas sentem necessidade de manter tudo com elas.

A próxima atitude equivocada engloba a “astúcia” e a “impostura”. Em tibetano, yo significa que você esconde os seus erros; e sgyu – significa que você finge ter qualidades que não tem.

“Ócio” refere-se ao fato de permitirmos que a preguiça nos conduza.

Sobre a “arrogância”: quando somos arrogantes, acreditamos que somos muito especiais. Temos orgulho e admiração por nós mesmos. Estamos certos de que somos uma pessoa maravilhosa, mesmo quando, na realidade, não temos tantas qualidades positivas. Estamos tão inflados com nosso ego, que não sobra espaço para mais nada. Nossa mente está obesa. Pensamos ser figurões; ou então pensamos que somos especiais porque temos muito dinheiro ou anos de estudo. Não importa quais são as nossas qualidades positivas – é importante não nos deixarmos levar pelo orgulho.

Dos três venenos, o apego divide-se em dois tipos: apego às pessoas ou apego às coisas materiais. E, então, mesmo que tenhamos tudo o que precisamos e ainda outras coisas mais, continuamos tendo aversão e sentimos necessidade de competir com os outros. Nenhuma dessas atitudes equivocadas são boas para essa vida ou para a próxima. Elas “roubam” nossas qualidades positivas e podem, portanto, ser vistas como “inimigas do bem”. Nenhuma delas permite que façamos boas conexões com as outras pessoas – e essa é mais uma razão pela qual devemos descartar tais atitudes.

É uma tradição na Índia e no Tibete que os grandes mestres sejam muito modestos. Eles dizem coisas como: “Eu realmente não sei muitas coisas”; “Eu não estudei muito”; “Eu não sou nem um pouco perspicaz”. Agora que o Darma está se espalhando no Ocidente e no Oriente, muitos mestres viajam pelo mundo, mas continuam seguindo a tradição de agir com modéstia. Porém, muitas pessoas assumem que os mestres estão dizendo a verdade e tomam o que eles falam ao pé da letra: “Bem, se ele não sabe, então não vale a pena obter ensinamentos com ele.” As pessoas ainda não aprenderam que esse comportamento dos mestres é uma expressão de humildade. É possível que alguém esconda um profundo orgulho por detrás de uma falsa modéstia. Uma pessoa assim não é um verdadeiro praticante. Por isso, os estudantes devem entender essa tradição de humildade. Quando um professor e seus alunos estão em sintonia, então alguma coisa boa pode acontecer.

A verdadeira humildade é sentida nas profundezas de nosso ser. Mesmo que tenhamos muitas qualidades positivas, entendemos que ainda temos muito o que aprender. Quando nos comparamos com os outros, podemos ver que o que sabemos é como uma gota em um oceano. Sentimos uma natural humildade quando vemos as grandes qualidades que ainda temos que alcançar.

É importante praticarmos o amor e a compaixão até que ambos se tornem inesgotáveis. Do fundo do nosso coração, desejamos que os seres vivos fiquem livres do sofrimento e encontrem a verdadeira felicidade. Queremos extinguir todo o sofrimento dos seres vivos e sermos seus servos. Para sermos capazes de fazer isso direito, nós temos que trabalhar para reduzir nosso orgulho. Mas não devemos fazer isso menosprezando a nós mesmos. “O Supremo Continuum” (UttaratantraShastra), de Maitreya, explica por que Buda ensinou sobre a natureza búdica (tathatagarbha). Se compreendermos que a nossa natureza essencial (e de todos os seres vivos) é a bondade básica e o potencial para a iluminação total, então não ficaremos desencorajados ou atormentados por um senso de inutilidade. Nós definitivamente não devemos procurar diminuir nosso orgulho através do auto menosprezo porque isso somente irá fazer com que nos sintamos desesperançados. Em lugar disso, podemos simplesmente pensar que ainda há muitas boas qualidades para alcançarmos e que agora somos apenas um pequeno lago se comparados com o vasto oceano de possibilidades. Essa mente humilde é do que precisamos para nos desenvolver.

A estrofe 13 trata sobre ser cuidadoso ou consciente.

Estrofe 13:

O Muni declarou ser a presença mental o caminho da

Imortalidade, e a desatenção o caminho da morte.

Destarte, praticai constantemente presença mental com

Respeito, a fim de cultivar darmas virtuosos.

Podemos ser vistos como praticantes ou chamarmos a nós mesmos de budistas, mas se não praticamos, então esses nomes não significam nada. O que devemos fazer, portanto, é examinarmos a nós mesmos para ver o que temos de positivo e de negativo. Em outras palavras, devemos ser as testemunhas de nós mesmos. Como está escrito em Os Sete Pontos do Treinamento da Mente: “Dos dois juízes, confie no primeiro.” E o primeiro juiz somos nós mesmos.

Essa estrofe compara ser cuidadoso e atento com néctar. Em tibetano, a palavra para néctar (ou amrita) é composta de duas sílabas. A primeira é: Dud (tibetano bdud), que se refere aos maras ou demônios que, na verdade, estão associados aos vários tipos de obstáculos, como velhice e doença ou aos quatro tradicionais maras – das aflições, do medo da morte, dos agregados e dos prazeres mundanos. A segunda sílaba é tsi (tibetano rTsi), que, aqui, significa “livrar-se de”. Isso quer dizer que aqueles que são capazes de recolher o néctar da atenção são capazes também de eliminar os obstáculos. Uma pessoa assim é um verdadeiro praticante do Darma. Para evitarmos ações negativas do corpo ou da fala, olhamos atentamente para nossas mentes a fim de nos assegurarmos de que nenhum mara alojou-se ali dentro durante ou após a meditação.

Essa cuidadosa atenção é, na verdade, necessária para qualquer tipo de prática. Quando seguimos o Vinaya, precisamos desse cuidado e atenção (como, por exemplo, ao observarmos as cinco ações virtuosas). Na tradição Mahayana, a mente é muito mais importante do que o corpo e a fala. Precisamos estar atentos e avaliarmos o que está se passando em nossa mente. E isso é ainda mais verdadeiro para a tradição Vajrayana.

A estrofe 14 continua a falar de atenção:

Estrofe 14:

Belo como a lua que se desembaraça das nuvens,

É aquele, anteriormente negligente, que se torna atento –

Semelhante a Nanda, Angulimala,

Ajatasatru e Udayana.

Nesses versos Nagarjuna fala sobre sermos corrompidos pelos erros primeiramente para, depois, nos purificamos deles. Esse processo é comparado com o movimento da lua para sair detrás das nuvens. A estrofe nos diz que a mudança é possível. Os exemplos dados são Ananda, que tinha um grande apego; Angulimala, que matou centenas de pessoas; Darshaka, que matou sua mãe; e Udayana, que cometeu várias ações negativas.

Logo, é possível purificar até mesmo as atividades extremamente negativas, e esse processo se dá por etapas. Na primeira etapa de purificação, arrependemo-nos pelo que fizemos e enxergamos nossa ação como negativa. Depois, de frente para as Três Joias ou para um Lama, fazemos nossa confissão, prometemos não agir de maneira negativa novamente e praticamos a purificação da ação negativa já cometida através da recitação de um mantra de Vajrasattva (por exemplo). O que é mais importante é que possamos ver que o que fizemos foi errado. Temendo o sofrimento, algumas pessoas podem sentir, lá no fundo, alguma hesitação e tal sentimento vai desvirtuar o processo de purificação. Então, é importante confessar do fundo do coração. Quando fazemos assim, isso nos traz alegria e felicidade verdadeiras.

Não devemos pensar, entretanto, que somos totalmente desprezíveis por dentro. Isso seria um obstáculo para o nosso caminho da prática. Se refletirmos sobre nossas vidas presentes e passadas, o fato de termos cometido erros não é de modo algum surpreendente. Não chegamos de nossas numerosas vidas passadas perfeitamente virtuosos; houve erros que não foram expiados. É por causa dos nossos carmas e aflições que tomamos o nosso atual renascimento. Os erros das nossas vidas passadas podem ser enormes se comparados com os erros das nossas vidas presentes.

Desse modo, é bom reconhecermos o que fizemos de errado, mas não devemos nos sentir totalmente desencorajados e acharmos que não há mais nada a ser feito. Podemos mudar ao reconhecermos e confessarmos nossas faltas. E quando fazemos isso, devemos fazê-lo completamente – não devemos deixar nada para trás. Confessar é como cortar uma maçã ao meio; nós nos separamos totalmente do que está errado. Por exemplo: Milarepa trabalhou arduamente para construir as torres a fim de purificar a matança de tantas pessoas. Podemos olhar para isso por dois lados: de um lado, Milarepa estava purificando sua ação negativa, por outro, ele estava criando uma grande alegria.

 

Sessão Cinco: parte da manhã

 O resumo seguinte dos ensinamentos da parte da manhã é baseado na tradução do tibetano para o inglês realizada por Ringu Tulku Rinpoche.

Gyalwang Karmapa começou dizendo que aquele era o terceiro dia de ensinamentos e que aquela era a última sessão de ensinamentos. Dado que não seria possível fazer comentários detalhados sobre o texto inteiro, Sua Santidade decidira fazer, pelo menos, a transmissão da leitura de todas as estrofes, comentando apenas algumas delas, ocasionalmente, para que tanto ele quanto a audiência tivessem uma sensação de finalização.

As próximas três estrofes: 17, 18 e 19 contêm instruções sobre como abandonar as baixas ações de corpo, fala e mente.

Estrofe 17:

Entendei os pensamentos como figuras

Desenhadas na água, terra ou pedra.

Para um estado mental aflito, o primeiro é o melhor;

Diante da aspiração ao Darma, o último.

Essa estrofe trata do abandono dos pensamentos negativos. Ela estabelece um paralelo entre a escrita na água, que apaga-se imediatamente; a escrita na terra, que mantém-se por um curto espaço de tempo; e a escrita na pedra, que pode durar por séculos. Sua Santidade explicou que durante nossos primeiros tempos de prática, experimentamos muitas aflições em nossas mentes. Assim, devemos treinar nossas mentes de forma que essas aflições sejam como coisas escritas na água. Quando, por outro lado, treinamos as qualidades positivas, tais como a generosidade amorosa e a compaixão, os resultados desse treinamento devem ser como inscrições feitas em uma pedra, ou, pelo menos, como algo desenhado na terra.

Estrofe 18:

O Jina declarou que a fala de uma pessoa pode ser de

Três tipos: agradável, verdadeira e inadequada –

Tal qual o mel, uma flor e a sujeira.

O último tipo deve ser abandonado.

Essa estrofe descreve três diferentes tipos de fala: a proveitosa e benéfica, que é doce como o mel; a verdadeira, que é bonita como uma flor; e a inadequada, que é imunda como a sujeira. A fala inadequada, que se manifesta como mentiras e intrigas está errada e deve ser evitada.

Estrofe 19:

As pessoas são de quatro tipos: aquelas que saem

Da luz e alcançam um fim de luz; as que saem da

Escuridão para um fim de escuridão; as que saem da luz para a escuridão;

E da escuridão para a luz. Sede como o primeiro deles.

A estrofe 19 explica por que devemos abandonar as ações não virtuosas e treinarmos as qualidades positivas. Nosso objetivo final é a iluminação, mas na existência cíclica as emoções negativas influenciam nossas ações e estas machucam os outros. Se deixarmos de lado as ações negativas e passarmos a nos dedicar a feitos positivos, nossas vidas atuais ficarão mais felizes e nossos futuros renascimentos serão mais auspiciosos. Gyalwang Karmapa citou um trecho do livro O Caminho do Bodhisatva, de Shantideva: “Se você anda no cavalo da Bodhichitta, você vai de um lugar feliz para um outro lugar feliz. Portanto, como poderia um Bodhisatva ser preguiçoso?” Das quatro possíveis direções que podemos tomar no samsara, devemos ter como meta ir da luz para a luz, transformarmos o bom no melhor.

Sua Santidade, então, leu as estrofes 20 a 29, fazendo uma pausa para comentar a estrofe 29.

Estrofe 29:

Ó Conhecedor do Mundo! Ganho e

Perda, bem-estar e sofrimento, fama e descrédito,

Elogio e censura; sede indiferente a estes oito darmas

Mundanos, e não deixeis que entrem em vossa mente.

Essa estrofe se refere aos oito problemas mundanos e às consequências a serem enfrentadas pelos que dependem demais de condições externas para se sentirem felizes e bem. Essa dependência cria um desequilíbrio em nossas vidas, que, por sua vez, faz com que nossos estados mentais comportem-se como ondas no oceano. Por exemplo: algumas pessoas, quando elogiadas, ficam extremamente felizes; mas quando são criticadas, ficam tristes e deprimidas. Desse modo, elas não têm estabilidade. Se, pelo contrário, pudermos ficar contentes com quaisquer condições que se apresentem em nossa vida, ficaremos sempre felizes. Sua Santidade alertou que os praticantes do Darma não devem dar muita atenção ao que os outros falam sobre suas práticas. Ele disse que, se pudermos manter uma estabilidade e equanimidade internas independentemente do que está se passando ao nosso redor, nossa vida ficará livre de problemas. Como praticantes, devemos entender e aceitar a natureza do samsara. A definição dada ao samsara é: “nem tudo vai bem” – logo, por que ficarmos surpresos quando as coisas não estão dando certo? Se você colocar sua mão na água quente, você se queimará. Você não ficará chocado com isso, pois é assim que as coisas são. Se você mergulhar em águas geladas, você não se surpreenderá com a sensação de frio! Nossa visão do samsara deve ser similar – devemos esperar os problemas e não perder o equilíbrio por causa deles.

Gyalwang Karmapa prosseguiu sugerindo formas de manter o equilíbrio mental na vida diária. O Abhidharma enumera cinco fatores mentais sempre presentes e um deles é o samadhi – a concentração, que é um dos fatores da estabilidade. Falando sobre sua própria experiência, o Karmapa disse que às vezes, ao final de um dia muito ocupado, ele sentia dificuldades de lembrar de qualquer coisa útil que tivesse feito durante o dia e que isso fazia com que ele pensasse que o dia tinha sido nulo e que a sua preciosa vida humana estava sendo desperdiçada.Ele, então, passava a refletir sobre o real significado de “perder tempo”. A coisa essencial, aconselhou Sua Santidade, era manter uma consciência estável em todas as nossas atividades – e se pudermos fazer isso bem, nunca estaremos desperdiçando tempo. Não faz sentido nos inquietarmos com o tempo que gastamos escovando os dentes, no tráfego ou na fila de um banco. Essas são meramente condições externas. Nós sempre temos escolha, independentemente do que estejamos fazendo; podemos sempre fazer uso de nossas mentes. Algumas pessoas acreditam, equivocadamente, que a felicidade e o bem-estar dependem de fatores externos, tais como comprar um carro; mas um exame minucioso mostrará que a felicidade depende de fatores internos e não externos. Se entendermos isso, seja lá o que estiver acontecendo a nossa volta, poderemos trabalhar nossas mentes e usar o tempo de maneira positiva e significativa. É fundamental entender que a felicidade vem de dentro.

Gyalwang Karmapa, então, leu as estrofes 30 a 37. Ele fez uma nova pausa na estrofe 58 para discutir o correto entendimento da impermanência.

Estrofe 58:

Assim, toda existência é impermanente, desprovida

De qualquer natureza intrínseca; não tem salvador,

Guardião ou lugar de descanso. Portanto, ó Grande,

Cultivai aversão pelo samsara que, qual uma bananeira, não tem essência.

Sua Santidade, observando que algumas pessoas ficam com medo quando meditam sobre a impermanência, comentou que esse não é o objetivo da meditação sobre a impermanência – esta não existe para trazer medo. Como budistas, acreditamos que o nosso atual nascimento é apenas um em um ciclo de sucessivos nascimentos e mortes. Entretanto, as pessoas frequentemente e equivocadamente pensam somente em termos da vida atual – um nascimento, uma vida, uma morte. Como consequência, a morte se torna obscura e amedrontadora. A correta maneira de encarar a impermanência é tomá-la como uma sequência de nascimentos e mortes, os quais podemos ver operando em todos os níveis de nosso dia a dia. A cada momento novas coisas surgem – isso é nascimento – e outras coisas chegam ao fim – isso é morte. Entender a impermanência dessa forma pode trazer dois efeitos positivos: o primeiro é reduzir o nosso medo da morte propriamente dita e o segundo é elevar nossa gratidão pela nossa existência, momento a momento, levando-nos a valorizar e apreciar cada instante de nossas vidas. Se falhamos em valorizar e apreciar cada momento, podemos desperdiçar nossas vidas. Se tomarmos cada momento como uma gota, poderemos fazer de nossas vidas um oceano de felicidade.

Gyalwang Karmapa terminou de ler todo o texto e deu por encerrada a transmissão da leitura.

 

Sessão de Perguntas e Respostas

Pergunta: Não deveriam alguns Rinpoches ter a aspiração de renascer como mulheres, como Tara fez, para demonstrar que as mulheres são capazes de alcançar a iluminação?

Resposta: Observando que era válido aspirar por isso, Sua Santidade comentou que no Tantra está claro que uma pessoa pode alcançar a budeidade no corpo de uma mulher. Um Buda pode se manifestar em qualquer corpo – macho ou fêmea (como por exemplo, Tara); mas seria errado pensar em termos de competição entre homens e mulheres. É preciso haver uma motivação – como, por exemplo, um Rinpoche desejar, com compaixão, que as mulheres se beneficiem para que ele aspire renascer como uma mulher. E não é preciso ser um Rinpoche para aspirar tal coisa – observou Sua Santidade – algumas pessoas da audiência poderiam fazer isso também.

Pergunta: Há tantas bhikkshunis [monja plenamente ordenada] aqui – mas nenhuma da tradição tibetana. Quando Sua Santidade começará a ordenação gelongma [ordenação plena para monjas]? Se Sua Santidade não der início à tradição, quem irá fazê-lo?

Resposta: Gyalwang Karmapa explicou que durante a recente Conferência de Vinaya tinha havido uma grande discussão sobre a questão da ordenação gelongma (em sânscrito: Bhikkshuni) e sobre como introduzi-la na tradição tibetana. Havia várias dificuldades que precisavam ser discutidas em profundidade, já que seria errado agir precipitadamente em relação ao assunto. Uma das dificuldades é que não há gelongmas [monjas com ordenação plena] na tradição Mulastavastavadin, que é seguida pelo budismo tibetano; por outro lado, certos fatos indicam que alguns mestres tibetanos do passado podem ter ordenado monjas. Uma outra dificuldade é encontrar um método pelo qual a ordenação gelongma possa ser introduzida de forma estável e duradoura. As possíveis soluções discutidas na conferência incluíram a ideia de que a ordenação gelongma fosse conduzida apenas por uma sangha de monges ou por uma sangha mista de monges da tradição Mulastavastavadin e de monjas da tradição chinesa Dharmagupta. É difícil saber quando a ordenação gelongma será possível, mas Sua Santidade assegurou que, movido por uma motivação sincera, vinha dando especial atenção ao assunto. Uma decisão como aquela não deveria ser tomada às pressas; tinha de ser cuidadosamente pensada para garantir o futuro da ordenação gelongma. “Não se preocupem, eu vou fazer isso” – disse ele, em inglês. “Sejam pacientes.”

Pergunta: Qual é o modo de vida apropriado para uma monja que está trabalhando em um hospital longe dos outros membros da sangha?

Resposta: Sua Santidade respondeu que para uma getsulma (monja novata) a coisa mais importante, do ponto de vista da tradição Vinaya, é manter os quatro votos básicos e não fazer algo que ofenda os leigos, levando-os a perder o respeito ou a fé na sangha.

Pergunta: Como devemos meditar sobre o egoísmo? E de que forma isso pode ajudar os seres sencientes?

Resposta: Sua Santidade comentou que embora pensemos em nós mesmos como separados e independentes, um exame mais cuidadoso da nossa situação prova que isso não é verdade. Desde o ar que respiramos e que sustenta nossas vidas, até a comida que ingerimos e os livros que lemos, somos dependentes dos outros. Somos parte de tudo que está ao nosso redor e agir compassivamente é o resultado da compreensão total dessa interdependência. O Karmapa observou que, em sua experiência pessoal, quanto mais ele compreende a interdependência, mais ele compreende o quão importante os outros são e o quão importante é trabalhar para o benefício deles. Geralmente pensamos “eu existo, logo os outros existem”. Precisamos entender que “eu existo porque os outros existem; se os outros não existissem, eu não existiria.” Compreender o desapego e a vacuidade é primordial para compreender a compaixão também. Às vezes, ao meditarmos sobre o desapego parece que tudo passa a ser nada, mas quando realmente entendemos o desapego a compaixão aparece também.

Isso foi o fim do ensinamento. Gyalwang Karmapa agradeceu a todos por terem vindo. Centenas de anos atrás a amizade entre Nagarjuna e o Rei Surabhibhadra produzira aquele texto; e naqueles três dias de ensinamento, graças ao mesmo texto, uma conexão tinha sido formada entre todos ali presentes. Sua Santidade disse que iria orar para que essa conexão pudesse ser renovada no futuro. Ele acrescentou que estava esperançoso de que todos carregariam de volta aos seus países, no Leste e no Oeste, a experiência de amizade, amor e harmonia que haviam compartilhado durante o ensinamento.

Sessão Seis: parte da tarde – Cerimônia de Encerramento

Depois de três dias de ensinamentos inspiradores, Sua Santidade encerrou a discussão sobre o texto de Nagarjuna – Carta a um Amigo – agradecendo os estudantes que haviam vindo de tão longe.

O Karmapa disse: “Estou feliz por ter podido transmitir ensinamentos sobre esse texto e agradeço a todos por terem me dado a oportunidade de fazê-lo. Carta a um Amigo foi escrita há mais de mil anos, quando o grande erudito Nagarjuna enviou uma carta ao seu amigo querido, o Rei Decho Zangpo. Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de falar sobre esse texto com fiéis estudantes do Leste e do Oeste. O fato de termos todos podido nos encontrar aqui é devido ao nosso considerável acúmulo de méritos no passado. Eu sinceramente espero que no futuro nós possamos nos encontrar mais vezes. Estou continuamente fazendo tudo o que posso para tornar isso possível.”

Como sinal de agradecimento ao Karmapa por seus ensinamentos especiais, e com votos para que a sua vida fosse muito longa, os líderes dos Centros de Dharma e os organizadores ofereceram-lhe oferendas de corpo, fala, mente, qualidades e ações. Então, Lama Chokyi, da França, falou por todos quando comparou Sua Santidade a um jardineiro muito habilidoso – no começo, as sementes são pálidas e pouco atraentes, mas o jardineiro sabe que, com cuidado, elas irão crescer e se tornar lindas flores; da mesma forma, no começo, quando os estudantes ainda estão imaturos, Sua Santidade os nutre com compaixão e ensinamentos com a esperança de que eles cresçam e venham a se tornar verdadeiras flores do Dharma.

Posteriormente, todos tiveram oportunidade de oferecer a Sua Santidade suas khatas e agradecimentos pessoais e também de receber as Suas bênçãos. Muitos ainda permaneceram nos jardins em torno do Monastério Tergar para aproveitar o sol e o clima agradável e para caminhar ao redor do santuário onde Sua Santidade se hospeda, ficando, assim, um pouco mais de tempo em Sua presença.

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Tradução para o português: Cláudia Marcanth

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Estrofes em português extraídas de Carta a um amigo: com o comentário do Venerável Rendawa, Zhön-nu Lo-drö / Nagarjuna; São Paulo: Palas Athena, 1994.

O livro Carta a um amigo, em português, faz parte do acervo de nossa Biblioteca e é disponibilizado para empréstimo domiciliar.