Budismo Ambiental, por Sua Santidade Gyalwang Karmapa

S.S. XVII Karmapa Gyalwang Karmapa foi convidado a contribuir com esse artigo para a edição do vigésimo quinto aniversário do distinto jornal Conservation Biology. Muito respeitado e amplamente reconhecido, o jornal Conservation Biology publica artigos acadêmicos inovadores e tem sido instrumental na definição das principais questões que envolvem a ciência e a prática da conservação da diversidade biológica do nosso planeta. A inclusão do artigo de Sua Santidade o Karmapa na edição comemorativa do vigésimo quinto aniversário do Conservation Biology deve-se ao reconhecimento de seu papel como um jovem líder religioso cujas palavras têm um alcance global que influencia e inspira os outros e cujas atitudes têm demonstrado um verdadeiro compromisso com as questões ambientais.

Vajra

 

Nasci em uma família Drokpa (“nômade” em tibetano) e passei os primeiros cinco anos de minha vida na parte agreste da região leste do Tibete. Nós viajávamos com nossos animais das pastagens de verão para as pastagens de inverno, montando e desmontando nossas tendas feitas de pelo de iaque. Era uma existência simples e minha alegria diária consistia em explorar as montanhas vizinhas com a minha cabra de estimação. Quando eu tinha sorte, conseguia ver animais selvagens como o nawa (carneiro-da-montanha do Tibete, Ovis ammon hodgsoni) e o shaba (cervo de boca branca, Przewalskium albirostris) de perto. Às vezes, eu conseguia ver várias manadas de kiang (asno selvagem do Tibete) correndo pelos prados.

Quando eu tinha 4 ou 5 anos, passamos por uma intensa seca e a nascente do nosso acampamento começou a secar. Uma vez que eu era tido como uma criança especial (embora naquela época ninguém soubesse que mais tarde eu seria reconhecido como o 17º Karmapa), nossa comunidade solicitou ao meu pai que ele me pedisse para plantar uma muda no início da nascente. Lembro-me de conduzir orações com a aspiração de que essa árvore ajudasse a prover todos seres sencientes das imediações com água. Apesar de não ter a menor ideia de que o que eu estava fazendo era uma “ação ambiental”, meu amor pela natureza e minha dedicação em proteger o meio ambiente cresceram a partir dessa semente.

Quando cresci e comecei a estudar a filosofia e os ensinamentos budistas, descobri uma grande harmonia entre o budismo e o movimento ambientalista. A ênfase na diversidade biológica, incluindo os ecossistemas – em particular o entendimento de que seres animados e inanimados são partes de um todo – está em fina sintonia com a ênfase do budismo na interdependência. A essência do budismo repousa na união da compaixão e da vacuidade: a profunda e genuína dedicação em aliviar o sofrimento de todos os seres sencientes e a compreensão de que tudo é destituído de natureza própria. Essas duas metades de um todo filosófico estão em ressonância com os objetivos do movimento ambientalista. Deixe-me explicar o que eu quero dizer.

O exemplo mais sublime usado pelos budistas para explicar a compaixão é a maternidade. Considere tudo o que a sua mãe provavelmente fez por você desde a sua concepção – carregou-o por 9 meses, vivenciou as dificuldades do parto e do nascimento, de alimentá-lo e vesti-lo, provendo todas as suas necessidades e preocupando-se com você até muito depois de você ter atingido a idade adulta. A maioria das mães nunca deixa de cuidar, de maneira incondicional, de seus filhos. Acreditando ou não em reencarnação, podemos supor que todos os seres sencientes são como mães para nós. A comida que aparece na nossa frente na hora do jantar foi plantada, criada, empacotada e preparada por pessoas que provavelmente não conhecemos. As roupas que vestimos foram produzidas por pessoas que provavelmente jamais conheceremos. Ainda assim, estamos nos beneficiando de suas esperanças, sonhos e trabalho. Plantas, animais e matéria-prima – todos foram utilizados para que tivéssemos essas coisas.

Essa é a interdependência que caracteriza a vida – nada existe por si mesmo ou é capaz de sobreviver sozinho. Nós somos todos parte da ecologia mundial e o mundo é extremamente compassivo em relação a nós.

A vacuidade, por outro lado, pode ser melhor explicada se usarmos o exemplo do ego. O que imaginamos quando pensamos sobre o ego? Onde exatamente mora o ego? Está no cérebro ou no coração? Na inspiração ou na expiração? No movimento de nossos membros? Um indivíduo é bem diferente aos 15 e aos 25 anos. Por ser impermanente e intangível, o ego é desprovido de qualquer natureza própria ou inerente. Consequentemente, nossas felicidades, tristezas, sucessos ou fracassos são também vazios por natureza. Isso não significa que nós somos nada, mas que estamos constantemente em movimento, absorvendo e mudando. Se estamos sempre mudando, não precisamos nos apegar intensamente às nossas experiências – e, uma vez livres desse apego, podemos desenvolver uma equanimidade em relação a todos os fenômenos. Experimentar ficar livre da certeza da existência de um ego e da importância deste leva-nos a dispensar a distinção artificial entre o “eu” e o “outro” e, consequentemente, a sentirmo-nos parte de todos os fenômenos.

Qual é a relação de tudo isso com o ambiente? De acordo com o budismo, a ignorância sobre a natureza vazia do ego e a rejeição da compaixão são as causas principais do egotismo, raiva, apego e ganância. É por causa da ignorância que os seres humanos vêm degradando o ambiente e levando várias espécies à extinção. A ignorância faz com que atribuamos um valor excessivo ao ego e a qualquer coisa relacionada a ele: minha família, meus pertences, meu país e até minha raça. Enxergar a diversidade da Terra através das limitadas lentes do ego produz a noção de que podemos, sem grandes preocupações, causar grandes danos ao planeta – isso porque as lentes do ego nos fazem ver a Terra como o “outro”.

Os Budistas acreditam que a ignorância é a razão das vidas humanas não estarem mais em harmonia com a natureza. É triste o fato de que a temperatura no planalto tibetano esteja aumentando mais rapidamente do que em qualquer outro lugar na Terra devido às mudanças climáticas. Sei que as consequências desse aumento de temperatura serão severas para as vastas pastagens do Tibete; e entristece o meu coração pensar que isso poderá significar o fim do estilo nômade de vida no Tibete. Além disso, fiquei sabendo que o mundo inteiro estará em risco se a temperatura global subir mais de 2 graus centígrados. A agricultura, em particular, será devastada. Na Índia, por exemplo, esse aumento de temperatura poderá levar a grandes perdas nas plantações de arroz, trigo e legumes – alimentos básicos da dieta naquele país.

Os efeitos do aquecimento global no planalto tibetano não ocorrerão isoladamente. O Tibete é o lugar onde nascem os grandes rios da Ásia: Indo, Ganges, Brahmaputra, Irrawaddy, Yang-tsé e Mekong. Algumas vezes o Tibete é chamado de “O Terceiro Polo” porque é a região que possui as maiores reservas de gelo e de água depois do Ártico e do Antártico. Se as nascentes do Tibete secarem ou ficarem contaminadas, as consequências serão terríveis para mais de um bilhão de pessoas. O crescente derretimento das geleiras conforme as temperaturas vão ficando mais elevadas provocará um aumento tanto das inundações como da falta de água em um futuro próximo. Nossa miopia nos deixa cegos para enxergar a relação entre nossas atividades e suas consequências a longo prazo. O grande desenvolvimento econômico nas últimas 5 décadas tem sido possível graças ao uso voraz dos recursos mundiais de combustíveis fósseis. Entretanto, um desenvolvimento dessa magnitude tem custos ocultos que vêm se acumulando ao longo dos anos e sendo lançados nas costas das pessoas que menos têm condições de se proteger. Mas, cedo ou tarde, todos nós teremos que pagar o preço.

A defasagem entre os ricos e os pobres é, hoje em dia, maior do que em todos os tempos; os proponentes do crescimento econômico parecem ter-se esquecido dos pobres para beneficiar os ricos. Além disso, a diversidade biológica é maior e a degradação ambiental mais alta em muitas das partes pobres do mundo. O modelo de desenvolvimento econômico é capaz de proteger ou reabastecer nossos preciosos recursos naturais? Podemos pegar emprestados os recursos naturais agora e devolvê-los mais tarde para as futuras gerações? Se a resposta para essas duas perguntas for “não”, então o que estamos fazendo é roubar a Terra de suas riquezas e chamando essas ações de “desenvolvimento econômico”.

A economia mundial atual se parece com uma árvore fértil de imensas riquezas. Admiramos seus vários galhos e folhas verdes e brilhantes e acreditamos que esta é a melhor árvore do mundo. Mas estamos olhando apenas para a sua metade superior porque a outra metade está escondida no subterrâneo. Se conseguíssemos olhar para o que está abaixo da superfície, poderíamos descobrir que as raízes de tal árvore estão morrendo por causa de maus-tratos e negligência. Talvez seja somente uma questão de tempo até que as más condições das raízes venham a afetar a parte de cima da árvore. Tratar os galhos e as folhas é apenas uma solução de curto prazo; não podemos garantir a saúde da árvore antes de tratarmos e curarmos completamente as suas raízes. Dessa forma, aprecio imensamente o conceito de desenvolvimento sustentável definido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente de Desenvolvimento (1987): “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” – afinal de contas, se o conceito de reencarnação for verdadeiro, nós somos a geração futura.

Encontro grande alegria e prazer no espírito humano. O poder de uma ideia é profundo. Considere o conceito de direitos humanos: uma simples ideia que superou incríveis dificuldades – totalitarismo, governos, guerra e pobreza – para tornar-se um ideal universal. E, no entanto, há apenas 100 anos, os direitos humanos não passavam de uma ideia incipiente. Acredito que uma revolução similar de pensamento precisa acontecer em relação aos conceitos de proteção ambiental e conservação da diversidade biológica. Deveriam existir direitos para a vida selvagem, para os ecossistemas e também para os serviços ambientais fornecidos pela natureza, como o ciclo hidrológico.

Apoio, de forma agradecida, os tratados globais para a proteção da vida selvagem e dos ecossistemas, os acordos que definem padrões mundiais para a segurança ambiental, assim como os esforços em curso para minimizar as mudanças climáticas provocadas pelo Homem. No âmago de cada uma dessas iniciativas está a sincera motivação de uns poucos indivíduos que dedicaram suas vidas a essas causas. Esses indivíduos me dão uma enorme esperança, uma vez que, se queremos criar mudanças no mundo, o processo deve começar dentro de nós mesmos. Não é realista lutar pela transformação do resto do mundo sem viver e ser o exemplo primeiramente.

Se houvesse algo como um santo budista da ecologia, eu nominaria o grande erudito indiano Shantideva, que, no século VIII, escreveu em seu Bodhicharyavatara (Guia para o Caminho de Vida de um Bodhisattava [1979]:

 

Possam todos os seres, em todos os lugares,

Atormentados pelos sofrimentos do corpo e da mente,

Obter um oceano de felicidade e alegria

Pela virtude dos meus méritos.

 

Nesse verso, Shantideva escolhe dedicar a sua vida ao alívio do sofrimento dos outros porque soube perceber a natureza interdependente da vida. Se aceitarmos que não somos indivíduos isolados, mas um todo que engloba todas as formas de vida na Terra, então, não poderemos mais ficar indiferentes ao sofrimento e aos males que estão diante de nós. A partir desse entendimento, gerar compaixão por todos os seres vivos e transformar essa motivação em ação é a coisa mais ecologicamente consciente que podemos fazer.

Durante os últimos 100 anos, mais de 95% da população mundial de tigres selvagens (Panthera tigris) desapareceu da face da Terra. Conforme as necessidades humanas iam se expandindo, nós fomos retirando cada vez mais coisas da natureza e deixando cada vez menos coisas para os outros animais. Entretanto, o magnífico tigre praticamente sumiu da Terra em razão da demanda consumista por sua pele e por outras partes de seu corpo. Ou seja, nós estamos condenando o tigre à extinção simplesmente porque consideramos que vestir sua pele nos faz parecer mais ricos ou que comer determinadas partes do tigre nos faz mais saudáveis. Agir desse modo é essencialmente não budista e não compassivo – não apenas pelo tigre, mas também por nós mesmos, já que tais atos trazem consequências cármicas negativas para quem os comete.

Compaixão pelo outro – seja pessoa, animal, planta ou a própria Terra – é a única coisa que, em última instância, salvará os seres humanos. A maioria das pessoas está primordialmente preocupada com seu trabalho, saúde e família. No dia a dia, essas pessoas provavelmente sentem que elas têm coisas mais urgentes com que se ocupar do que pensar sobre os impactos ambientais de suas atividades. Isso é compreensível: dar atenção a essa questão significaria ter que fazer mudanças e escolhas inconvenientes em suas vidas. E eu não sou muito diferente: embora eu tenha considerado deixar de comer carne durante anos, só fui me tornar um completo vegetariano poucos anos atrás.

Alguém me mostrou um pequeno documentário que revelava como os animais sofriam antes e durante o abate. Ao ver aquelas cenas, pude sentir o medo vivenciado pelos animais. Como que atingido por um raio fulminante, fiquei imediatamente consciente do enorme sofrimento pelo qual aqueles seres vivos tinham que passar apenas para satisfazer minhas preferências habituais. A partir daquele momento, comer carne passou a ser intolerável e eu deixei de comê-la.

A questão que permanece é: quando chegará o momento em que para todos nós será intolerável não somente comer carne, mas também cometer ou compactuar com qualquer ato que agrida o meio ambiente? Vamos permitir que o nível do mar suba e cubra as ilhas do Pacífico? Que os Himalaias fiquem reduzidos a pedras nuas? Vamos deixar que as maravilhosas formas de vida selvagem se tornem extintas e virem apenas personagens de histórias antigas que serão contadas às futuras gerações? É certo deixar que florestas vicejantes transformem-se em grandes áreas de cultivo agrícola a fim de que nossas intermináveis demandas consumistas sejam satisfeitas? É certo conviver com montanhas de lixo que não param de crescer porque somos incapazes de administrar os efeitos do consumismo?

Para que a sociedade tenha sucesso ao enfrentar os desafios ambientais do século XXI, devemos realizar uma conexão entre tais desafios e as escolhas individuais que fazemos cotidianamente. Não podemos simplesmente abordar os aspectos políticos ou científicos de problemas como a mudança climática, extração intensiva dos recursos naturais, desmatamento e comércio de espécies selvagens. Devemos também abordar os aspectos sociais e culturais desses problemas através de uma estratégia que desperte os valores humanos e através da criação de um movimento pela compaixão de forma que a nossa maior motivação para nos tornarmos ambientalistas seja beneficiar os outros seres vivos.

Para fazer tudo isso, a primeira e mais importante tarefa é habilitar todo mundo a proteger o meio ambiente. Eu venho de uma região do Tibete que é considerada atrasada pelas pessoas que vivem em Lhasa, quanto mais para as pessoas que vivem no Ocidente. Minha família vivia em condições que muitos considerariam extremamente duras e não desenvolvidas. E ainda assim, meu pai, que nunca frequentou a escola, tinha aprendido, com o próprio pai, que, se você quisesse proteger uma nascente, você deveria plantar árvores. Creio que sempre encontraremos nos povos indígenas, que vivem perto da natureza, os nossos melhores aliados em proteger o meio ambiente. Se queremos salvar a Terra, cada um de nós deve fazer a sua parte. Precisamos quebrar barreiras e erguer pontes. Afinal, para quem estamos tentando salvar a Terra senão para nós mesmos?

Em segundo lugar, é crucial que achemos meios de minimizar nosso consumo de energia, ou, pelo menos, alternativas seguras para o carvão, óleo e gás. Uma das coisas mais fáceis a fazer seria transformar a captação de energia solar e de outras alternativas seguras de energia em tecnologias mais baratas. Meu principal monastério no Tibete, Tsurphu, é afortunado, pois está localizado próximo a uma fonte geotérmica natural que usamos para obter energia. Agora que estou na Índia, estamos tentando fazer com que todos os nossos monastérios Karma Kagyu no país sejam autossuficientes em termos de uso de energia. Seria maravilhoso poder dizer, com certeza, que nós, monges budistas, não estamos contribuindo para os problemas ambientais mundiais. Talvez, um dia, todos os países possam vir a usar esse padrão para definir seu estágio de desenvolvimento.

Em terceiro lugar, convido todos os acadêmicos e profissionais a ajudar a proteger o planalto tibetano, que abastece de água a maior parte do continente asiático. Como a água nessa região ainda não vem com etiqueta de preço, nós não damos o devido valor a esse precioso recurso e às suas fontes. E os estragos já se fazem notar: o Yarlung Tsangpo (Brahmaputra) está seriamente ameaçado pelas barragens e o Sengye Tsangpo (Indo) já não alcança mais o mar. Como o Terceiro Polo, o Tibete é altamente vulnerável às mudanças climáticas e o que acontece lá influencia enormemente o resto da Ásia.

Em quarto lugar, devemos coletivamente reconsiderar o que queremos dizer com a palavra “sucesso”, seja em termos de crescimento econômico, desenvolvimento ou riqueza pessoal. O modelo atual de crescimento econômico é simplesmente inatingível para a vasta maioria da população mundial, que luta para viver diariamente. Se atribuíssemos à compaixão, paz e solidariedade o mesmo valor que atribuímos à riqueza e status social, cada um de nós iria se esforçar por um sucesso que naturalmente incluísse toda a comunidade. Precisamos explorar alternativas práticas e salutares para que cheguemos a um entendimento comum sobre ideias de desenvolvimento e sucesso que sejam do interesse de todos e alcançáveis por todos.

Por último, acredito que o futuro da vida na Terra depende daqueles de nós que têm o privilégio de levar uma vida simples. Levar uma vida simples é ter compaixão por si mesmo e por todo o resto do mundo. Uma vida cheia de bens materiais e desprovida de compaixão é insustentável do ponto de vista ecológico e cármico. É claro que os anúncios publicitários estão sempre nos dizendo que o caminho para a felicidade passa pela compra do produto que eles estão tentando vender. Como é que a propaganda consegue nos convencer, mesmo quando somos céticos em relação à sua mensagem? Nosso apego à nossa felicidade, possessões, família e ego cria uma falta de perspectiva que nos deixa suscetíveis. Entretanto, se pudermos ficar conscientes da vacuidade do ego, poderemos criar um espaço para a escolha em lugar do habitual consumismo. Não temos que viver a vida que é vendida para nós – podemos fazer a corajosa escolha de levar uma vida simples.

Na raiz de todas as religiões estão os mesmos princípios básicos. Viva com simplicidade. Aja com compaixão. Sejam generosos uns com os outros. Em nenhum lugar existe uma religião que pregue que deveríamos destruir o mundo que nos deu a vida. Então, sinto-me seguro em dizer que, do ponto de vista religioso, nós devemos conservar todas as formas de vida e proteger a Terra. Pessoalmente, busco inspiração nos ensinamentos do Senhor Buda que, em sua essência mais profunda, ensinam-nos a trabalhar para o benefício de todos os seres sencientes e impedir que sofram. E também me inspiro em Sua Santidade o Dalai Lama, que disse que a chave para a sobrevivência humana é a responsabilidade universal.

O Guia para o Caminho de Vida de um Bodhisattva, de Shantideva (1979), continua a ser estudado em profundidade pelos budistas das linhas Mahayana e Vajrayana até hoje. O Bodhicharyavatara nos mostra que o caminho para a budeidade passa pelo cultivo da compaixão e da percepção da vacuidade. E o livro diz isso através de versos iluminados que inspiram todos aqueles que desejam renunciar aos seus próprios desejos e ambições com o objetivo de beneficiar todos os seres vivos.

Como o 17º Karmapa, estou confiante de que as ações budistas podem ser diretamente traduzidas como proteção ambiental. Com essa visão, temos atualmente mais de 40 monastérios Kagyu e conventos por todo o Himalaia implementando projetos ambientais que se debruçam sobre as questões da degradação das florestas, escassez de água, comércio de espécies selvagens, mudanças climáticas e poluição, com a orientação das organizações não governamentais, incluindo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF – World Wildlife Fund). Sabemos que isso é somente uma gota no oceano e que os desafios que enfrentamos hoje são muito complexos e extensivos para que, sozinhos, possamos lidar com eles. Porém, se cada um de nós contribuir com uma única gota de água limpa para proteger o meio ambiente, imaginem o quão puro esse vasto oceano vai ficar no final.

 

Todos os conteúdos © Thar Lam

Original em inglês: ‘Environmental Buddhism. Thar Lam, The Path of Liberation, The International Journal of Palpung. Dezembro, 2011. p. 62 – p.67

Traduzido para o português por Cláudia Marcanth.