A compaixão é a raiz de todas as práticas, por Sua Santidade XVII Karmapa

S.S. Karmapa Ogyen Trinley Dorje

S.S. Karmapa Ogyen Trinley Dorje

Buda apresentou os três cestos1  como veículos para os seus ensinamentos. Os ensinamentos que estes três cestos continham são conhecidos como os três treinamentos. Todos esses ensinamentos baseiam-se em evitar causar sofrimento aos outros e tentar ajudar os outros. É, portanto, muito importante para os budistas ter esses dois princípios como o centro de suas práticas. As raízes da prática budista são as atitudes de altruísmo e de não violência. Em outras palavras, as raízes da prática budista são a bondade amorosa e a compaixão.

Entre essas duas qualidades, penso que a compaixão é a que vem em primeiro lugar: em geral, desenvolvemos a bondade generosa a partir da compaixão. Dessa forma, no início, a compaixão é, de um certo modo, a mais importante. Nossa compaixão deve ter um alcance amplo, incluindo não apenas nós mesmos, mas também todos os seres sencientes.

Por que é necessário incluir todos os seres sencientes? Porque todos os seres sencientes – nós mesmos e os outros – querem ser felizes e livres do sofrimento. Esse desejo básico é o mesmo para todos. Entretanto, a maioria dos seres sencientes que podemos ver em torno de nós experimenta somente sofrimento; eles não conseguem obter felicidade. Assim como nós temos o desejo de varrer o sofrimento para fora da nossa experiência e desfrutar a felicidade, através da meditação sobre a compaixão nós ficamos aptos a enxergar que todos os outros seres sencientes têm esse mesmo desejo. Então, os outros seres não são apenas merecedores da nossa compaixão, eles são também a razão pela qual é possível meditarmos sobre a compaixão.

De acordo com os ensinamentos Mahayana, todos os seres sencientes são “nossos pais/mães do passado, presente e futuro.” Isso significa que, de todos os seres sencientes, alguns foram nossos pais/mães no passado, alguns são nossos pais/mães no presente e alguns serão nossos pais/mães no futuro; não há ser que não seja, no fim das contas, nosso pai/mãe. Por esse motivo, todos os seres sencientes têm uma conexão de afeição em relação a nós. Eles têm uma conexão de bondade em relação a nós. Esses afetuosos pais/mães estão presos em um estado de sofrimento, incapazes de realizar seu desejo de alcançar a felicidade. É crucial para nós começar a meditar sobre a compaixão por eles, nesse exato momento. Creio que isso explica claramente por que é necessário incluir no propósito de nossa meditação sobre a compaixão não apenas o benefício para nós mesmos, mas também o benefício para os outros.

Quando praticamos a meditação sobre a compaixão, não é suficiente simplesmente sentir uma onda de compaixão em nossas mentes. Precisamos levar nossa meditação sobre a compaixão ao nível mais profundo possível. Para tornarmos nossa compaixão o mais profunda possível, nós refletimos sobre o sofrimento dos seres sencientes em todos os seis reinos do samsara. Esses seres sencientes que estão passando por um intenso sofrimento são os nossos pais/mães no passado, presente e futuro. Em resumo, todos os seres sencientes são indivíduos com os quais nós somos conectados.

Uma vez que somos conectados, poderemos aumentar essa conexão através do benefício que trazemos aos outros seres. A melhor conexão que poderíamos fazer seria cultivar uma compaixão sincera pelos seres sencientes e pensar em coisas que poderíamos fazer para reduzir seu sofrimento. Ao refletir sobre nossa conexão com esses seres, precisamos gerar uma compaixão que não tolere a ideia de que eles continuem sofrendo. Essa enorme e intolerável compaixão é extremamente importante. Sem ela, podemos até sentir ondas de compaixão em nossas mentes de tempos em tempos, mas essa sensação não terá forças para trazer à tona o poder total da compaixão, não poderá ser a base para uma prática abrangente.

Por outro lado, quando a compaixão intolerável nasce em nossos corações, somos imediatamente compelidos a agir de maneira altruística. Automaticamente, começamos a pensar em como poderemos liberar os seres sencientes do sofrimento. Desse modo, podemos concluir que o caminho para o altruísmo passa pela meditação sobre a compaixão. Quando nossa compaixão torna-se genuína e profunda, nossas ações para beneficiar os outros passam a ser realizadas sem esforço e sem hesitações. É por isso que é tão crucial para nós aprofundarmos nossa prática de compaixão até que a compaixão se torne intolerável.

Diferentemente da nossa maneira usual de abordar a compaixão – onde meditamos aqui e ali sobre a ideia geral de que os seres sencientes experimentam sofrimento – a compaixão intolerável penetra e deixa os nossos corações em prontidão. Por exemplo: se víssemos alguém preso dentro de um incêndio, prestaríamos socorro imediatamente, sem qualquer demora. Diante do fogo, pensaríamos logo em maneiras de remover a pessoa presa ali dentro e agiríamos prontamente. Da mesma forma, tomados pela compaixão intolerável, ao testemunharmos o sofrimento de todos os seres sencientes dos seis reinos, imediatamente começamos a pensar em como livrá-los desse sofrimento. Nós não somente genuinamente ajudamos os seres a se verem livres do sofrimento, mas também ficamos inteiramente dispostos a enfrentar qualquer obstáculo que apareça durante esse processo. Não nos abalamos com complicações ou dúvidas.

Todos os seres sencientes têm compaixão básica. Mesmo as pessoas que geralmente consideramos maldosas têm compaixão; estas simplesmente não elevaram sua compaixão básica a um nível mais avançado. Se as pessoas maldosas não tivessem qualquer compaixão, seria impossível para elas desenvolver a compaixão através do caminho da prática. Todos os seres têm compaixão, mas suas portas para o aperfeiçoamento da compaixão podem estar trancadas. Então, apesar de poder parecer que algumas pessoas não têm qualquer compaixão, todos têm pelo menos uma pequena semente de compaixão. Esta pequena semente pode crescer e virar uma grande compaixão; o potencial que todos nós temos para uma grande compaixão pode sempre se manifestar e crescer.

Se por um lado os seres iluminados e nobres podem fazer com que seu potencial para a compaixão se manifeste de maneira integral, nós, seres comuns, por outro lado, não podemos fazer a mesma coisa. Apesar de termos a semente da compaixão, nós não temos a compaixão que queremos. Precisamente quando necessitamos mais da compaixão, não conseguimos ter acesso a ela; a porta da nossa compaixão está fechada.

Para tornar forte a nossa compaixão e para fazer com que nossa semente de compaixão germine, precisamos do caminho. Quando entramos no caminho da compaixão, começamos a nos conectar com a compaixão que precisamos para ajudar os outros e começamos a desenvolver a compaixão que precisamos para atingir a iluminação. Nós todos já temos compaixão, bodhichitta, sabedoria e muitas outras qualidades positivas, mas nossas aflições mentais são muito mais fortes do essas qualidades na maior parte das vezes. É como se as aflições tivessem trancado todas as nossas qualidades positivas em uma caixa.

Um dia, quando abrirmos essa caixa e todas as nossas boas qualidades saltarem para fora, nós não precisaremos mais sair em busca de nossa compaixão. A compaixão não está à venda em nenhum lugar. Nós vamos descobrir que a compaixão está presente em nossa mente espontaneamente. Um tesouro de qualidades excelentes ficarão disponíveis para nós.

 

Do original ‘Compassion is the root of all practices’, extraído do livro “Heart Advice of the Karmapa”, Dharamsala: Altruism Press, 2008. p. 65-68.  Tradução desse capítulo para o inglês feita por Tyler Dewar.

Traduzido para o português por Cláudia Marcanth

© 2008, S.S. Karmapa Ogyen Trinley Dorje.



1 Os Três Cestos ou Tripitaka (em sânscrito), dividem-se em Vinaya Pitaka, Sutta Pitaka e Abhidhamma Pitaka. Tipitaka em Pali significa três cestos e o termo guarda o sentido de cestos que contêm os ensinamentos e que vêm sendo passados, ininterruptamente, de mestre a discípulo, até os dias atuais. (N. do T.)